terça-feira, 9 de junho de 2015

Obras para Rio-2016 lembram antigos tempos de mudança da cidade

Transformações para Olimpíadas retomam época do Bota-Abaixo do século XX

Matheus Palmieri


Eleito sede dos jogos Olímpicos de 2016, o Rio de Janeiro e sua população vêm sofrendo com obras faraônicas que prometem ligar a cidade entre si e aos locais de competição. Apesar de aparentarem ser um avanço para a ex capital federal e para a população, as transformações do espaço urbano carioca correm contra o tempo para que possam ser úteis durante os Jogos, e assim, a Cidade Maravilhosa se tornou um canteiro de obras nos últimos anos.

O Porto Maravilha é um dos principais pontos de reurbanização da cidade
Foto: Cariocadorio's Blog

As mudanças são tão vastas que é possível fazer uma comparação com a primeira grande alteração urbana da cidade, no começo do século passado, o “Bota-Abaixo”. Durante o governo de Pereira Passos, o Rio, que não era ponto de interesse de navegantes devido a grande quantidade de doenças encontradas em seu porto, teve sua estrutura e base totalmente alteradas para poder se tornar uma cidade internacional. A capital da República tinha uma arquitetura portuguesa, e diversos edifícios demolidos para dar lugar às novas construções com uma arquitetura “parisiense”. A construção da Avenida Rio Branco, também nessa época, incluiu a implosão de parte do Morro do Castelo, histórico local do início da cidade no século XVI. Para Fabiana Izaga, vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, a construção da avenida foi importante para o desenvolvimento futuro da cidade.

- Isso alterou o vetor de crescimento da cidade. No começo, ela visava ir para a Zona Norte, e tinha Botafogo, a Glória como final do Rio. Após a construção da Central, a cidade se volta para orla, para as praias. O que mudou a identidade do Rio de Janeiro – afirmou Fabiana, que também é professora da UFRJ.

As obras atuais também visam unir zonas da cidade, que possuem difícil acesso em dias comuns, de uma forma mais imediata e direta. Os BRTs são a principal medida adotada pelo governo de Eduardo Paes para unir essas zonas. Há também dois projetos em andamento que pretendem facilitar o cidadão a fazer o trajeto Zona Sul-Barra. As obras da Linha 4 do Metrô, vão ligar a Barra a Ipanema. Outra medida que vai facilitar o trajeto é a ampliação do Elevado do Joá, que conecta a Gávea à Barra. O estudante Ricardo Conti, que mora na Barra e estuda na Zona Sul, afirmou que essas obras estão dificultando a vida dos moradores:

            - Antigamente, quando não existiam essas obras do BRT, eu chegava tranquilamente na faculdade 6h40, 6h50, no máximo. Essas obras dificultam muito a mobilidade na Barra da Tijuca, e ainda tem a construção do Metrô, logo depois da faixa do BRT.

 Futuro em dúvida

            Apesar de no papel as obras parecerem bastante promissoras, o motivo delas é o que as ameaça como legado. Grandes partes das transformações em que o Rio de Janeiro passa são devido às Olimpíadas obras precisam estar prontas para os jogos. Mas, o que parecia ser um grande motivo para o crescimento do Rio, desde o anúncio como sede dos jogos, se mostra agora como um vilão para a continuidade do crescimento da cidade mais ou menos como uma metrópole mundial.

            Essa pressa para conclusão pode resultar em projetos mal elaborados e realizações longe do idealizado. Com isso, Fabiana alerta uma prática comum em grande parte das obras de projeto olímpico:

            - Como os projetos são fechados apenas a empresa vencedora da licitação e o Governo, essa companhia pode pedir alguma alteração do projeto e, consequentemente, uma maior verba para a realização da obra. Isso é muito ruim porque além de ficar alterando o projeto e atrasando as obras, dá carta branca para as empresas cobrarem o que quiserem pelas obras.

            Com esse cenário de pressa, o legado do Rio pode não existir. Ou seja, os últimos anos em que grande parte da cidade conviveu com um transito caótico, poeira e obras intermináveis podem não dar nenhum retorno para o desenvolvimento da Cidade Maravilhosa.
Obras atuais lembram outros períodos fora o Bota-Abaixo.

            Apesar da forte associação com a reforma urbana de Pereira Passos, do começo século passado, as atuais obras em que o cidadão carioca convive traz lembranças de outra importante intervenção na mobilidade urbana do Rio de Janeiro. As medidas de Carlos Lacerda, quando era governador do Estado da Guanabara, tinham esse caráter de união de diversas áreas da cidade.

            Lacerda não substituiu espaços, como Pereira Passos fez, mas sim, criou vias para que os cidadãos pudessem trafegar em diversas áreas da cidade de uma forma mais direta e dinâmica. Os túneis Rebouças e Santa Bárbara foram criados durante seu mandato. Fabiana Izaga, do IAB, afirma que essa comparação é possível:

            - Naquela época, para ir da Zona Norte para Zona Sul, era preciso passar por todo Centro. Com a criação desses túneis, ficou muito mais prático ir de uma região a outra.

            

terça-feira, 2 de junho de 2015

Bota-Abaixo do passado e do presente e suas semelhanças



Plano de desenvolvimento na cidade traz mudanças para população 

Nicole Crivoi

          O Rio de Janeiro vem crescendo bastante com o passar dos anos e esse crescimento vem se dando também pelos grandes eventos que irão acontecer na cidade nos próximos anos. O “Bota-Abaixo” atual nos faz lembrar muito do “Bota-Abaixo” do passado. Para a arquiteta Vanda Vilhena, a maior semelhança é o ímpeto modernizador que marcou ambos os períodos e a ênfase no embelezamento da cidade segundo os padrões importados, já naquele tempo. A mudança e reformas urbanas do século XX, como o projeto de construção da Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, foi o maior marco, assim como a remoção do Morro do Castelo. O começo da modernização, de industrialização e urbanização que levaram a cidade a ser o que é hoje.

          Seguindo o plano de desenvolvimento da cidade, a Região Urbana do Porto Maravilha está preparando a Região Portuária com finalidade de reestruturar o local, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos moradores e da população. Mas essas obras e mudanças causaram grandes transtornos no trânsito da cidade. Segundo a secretária Júlia Soares, que trabalha no Centro do Rio há mais de cinco anos, ela não consegue mais andar no Centro de carro devido às mudanças nas mãos das ruas. Além de tudo, ela mora na Barra da Tijuca e não consegue levar menos de duas horas para chegar ao trabalho.
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Avenida Rio Branco: obras impedem a passagem de carros e pedestres

          Com as obras nas avenidas do Centro da cidade muitas pessoas foram prejudicadas, pois as ruas mudam de mão a cada dia. Para Júlia Soares, ficou muito mais difícil andar no Centro e a possibilidade de ir de carro para lá já foi descartada, pois ela sempre se perde e leva mais tempo do que deveria. Quando começaram as obras, agentes da prefeitura distribuíram panfletos sobre as mudanças no trânsito mas a maioria não sabia indicar aonde eram os pontos de ônibus, por exemplo.

          A obra, feita pela prefeitura do Rio de Janeiro, com apoio do governo estadual e federal, abrange uma área de cinco milhões de metros quadrados, que tem como limites a Avenida Presidente Vargas, Rodrigues Alves, Rio Branco, e Francisco Bicalho. Em julho de 2012, iniciou-se a reurbanização que previa o prazo de obras para terminar em 2016. Entre às intervenções urbanísticas, pode-se citar importantes mudanças, como a demolição do Elevado da Perimetral, a transformação da Avenida Rodrigues Alves em via expressa, a criação de uma nova e rota, chamada de Binário do Porto, e a reurbanização de 70 km de vias.

         No “Bota-Abaixo” do passado, o Plano Pereira Passos acabou com morros e levou gente das favelas para longe da cidade, mas não havia um movimento ambientalista ou pela habitação popular organizado. Para Vanda Vilhena, hoje em dia o impacto nesse aspecto é menor, pois há um planejamento melhor em relação às remoções de pessoas de suas casas.

E o futuro?

          Apesar de todas as obras que estão sendo feitas, as obras do Pan-Americano e do Engenhão estão mal-feitas e sendo refeitas. O próprio Engenhão, por exemplo, já foi fechado no ano passado, pois sua estrutura estava prejudicada e desabando. O estádio foi construído para o Pan-Americano e depois de alguns anos já sofria com problemas em sua estrutura. O motivo é a falta de planejamento em obras desse porte, fazendo com que a cidade tenha muitas obras de reparação. Mas apesar de reparar essas obras, existem outras grandes obras de infra-estrutura e de corredores de transporte coletivo, como o BRT e o VLT.
          Com essas obras, a cidade acaba ficando um caos, com muitas obras espalhadas, virando um canteiro de obras. Isso prejudica a locomoção das pessoas. Mas apesar disso, elas irão aproveitar das obras que estão por vir, principalmente as de transporte. O BRT já mostra melhoras e o metrô que está sendo expandido faz com que a população tenha mais esperança em relação ao futuro.

Rio e suas primeiras reformas

          Com os 450 anos do Rio de Janeiro, a cidade está com comemorações por todo lado. Um desses lugares é o Instituto Moreira Salles, que está com programações especiais que contam com exposições sobre o Rio, visto desde os seus primórdios. As duas exposições em questão são “Um passeio pelo Rio” de Joaquim Manuel de Macedo e “Rio: primeiras poses”, essa segunda com a visão da cidade a partir da chegada da fotografia, entre 1840 e 1930.

          Em “Um passeio pelo Rio”, os visitantes podem ver através de desenhos, fotografias e gravuras de Joaquim Manuel de Macedo a cidade no século XIX. As imagens testemunham um tempo perdido e também confirmam a preocupação de Macedo, para quem o descaso do Rio com o seu patrimônio, já naquele tempo, traduzia-se em uma “indiferença que um pouco se aproxima do vandalismo”. Já em o “Rio: primeiras poses” é possível percorrer nove décadas através de fotos da cidade, especialmente durante o Segundo Reinado de d. Pedro II e também as primeiras décadas da República. A mostra conta com 450 imagens de fotógrafos como Marc Ferrez e Augusto Malta, que foram escolhidas entre 10 mil do acervo do IMS.

          Lívia de Almeida é professora e estava de visita à exposição “Rio: primeiras poses” com um grupo de alunos. Segundo ela, a exposição mostra um Rio em detalhes nas fotografias, que muitos não viveram e presenciaram. Já o estudante Eduardo Dias, de 16 anos, conta que o que mais gostou da exposição foi a parte interativa, onde ele podia “dar zoom” nas fotos e ver de forma mais detalhada, além das imagens em 3D.

          Em um dos ambientes da exposição, é possível ver a mudança e reformas urbanas do século XX. O projeto de construção da Avenida Central, hoje avenida Rio Branco, foi o maior marco. Entre as ações, o fotógrafo Augusto Malta registrou todas, principalmente a abertura da Avenida Central juntamente com a remoção do morro do Castelo. Outro fotógrafo da exposição, Marc Ferrez, tem o seu Álbum da Avenida Central, onde registrou a avenida desde que foi inaugurada.

            A exposição mostra também o começo da modernização, de industrialização e urbanização. Com isso, é possível observar as transformações através de imagens da Barra da Tijuca, Jacarepaguá, Copacabana e muito mais. Ferrez e Malta construíram, com seus trabalhos, o principal legado da fotografia para a memória da cidade na passagem do século XIX para o XX.

O Bota-Abaixo de Eduardo Paes e Pereira Passos



Desde Pereira Passos o Rio de Janeiro sofre transformações conturbadoras

                                                                                              Marcela Salgueiro

Durante os séculos XIX e XX, o Rio de Janeiro cresceu sem controle. No ano de 1808 a Família Real chegou ao Brasil, tendo um aumento na população de modo considerável. Com mais de 500 mil habitantes já no início do século XX, o Prefeito Pereira Passos começou a tentar a modernizar o Rio de Janeiro, capital federal da época, para que ela pudesse crescer. Em um período de cerca de 100 anos, a cidade cresceu, se modernizou, porém de um jeito com que os moradores da cidade não ficassem satisfeitos. Os problemas que hoje podem ser vistos claramente como a mobilidade urbana e a violência só aumentam, e os cariocas esperam que as novas reformas promovidas pelo Prefeito Eduardo Paes realmente mude a cidade para melhor.

As novas reformas, conhecidas como o novo “Bota-Abaixo”, chamam a atenção pelos transtornos que vem causado no cotidiano da população. Para a arquiteta e historiadora Ana Luiza Nobre, a maior semelhança entre os dois “Bota-Abaixo” é o ímpeto modernizador que marcou os dois períodos: a ênfase no "embelezamento" da cidade segundo padrões importados e a urgência que justifica tudo, como no caso das remoções discutíveis.

Obras do Metrô na Linha 4 Sul: transtornos cotidianos para os cariocas
Viviane Vieira

A estudante Yulli Dias moradora do Condomínio Rio 2, em Curicica, afirma que as obras tem prejudicado muito a vida dela. Antes ela não pegava trânsito em alguns lugares que hoje em dia o tráfego é insustentável, complicando inclusive a entrada no condomínio. Ela também reclama da segurança:

- A segurança diminuiu muito também porque é muita gente rodando por essa área, que antigamente não existia. O lugar que já não possuía muita segurança, agora tem menos ainda com vários canteiros de obra e tapumes, tampando a visibilidade mais adiante e a iluminação do local.

Porém, Yulli espera que com o final das obras, todo esse transtorno tenha valido a pena, e que não seja mais uma obra largada pela metade porque não deu tempo de terminar, como outras que já aconteceram na cidade.

A arquiteta Saide Kahtouni afirma que não há falta de plano no novo “Bota-Abaixo”:

- Para montar uma estrutura como essa, e que as prioridades estão claras, que no caso é a renovação urbana com pequena importância dada ao morador simples de habitações precárias, em áreas que terão nova centralidade, padrão elevado diante da nova cidade, reformada, renovada para destaque na lista das cidades globais.

Saide ainda se posiciona sobre o “Bota-Abaixo” na época de Pereira Passos:

- O “Bota-Abaixo” seguiu as mesmas premissas de embelezamento e modernização internacionais, através do estilo neo-clássico e do ecletismo na Arquitetura. Porém, não se preocupou, assim como hoje, com as pessoas mais desfavorecidas.

O Futuro Incerto
O futuro do novo “Bota-Abaixo” é algo questionável por todos os cidadãos cariocas. Com obras incompletas anteriormente, ou com problemas de construção como é o caso do Engenhão, o legado dessas transformações vem movimentando a vida dos cariocas.

A Arquiteta Saide Kahtouni afirma que um enorme número de obras está sendo feito para favorecer a cidade:

- Existem grandes obras de infra-estrtura como novas linhas de metrô alcançando a Barra e corredores de transporte coletivo. Também novos museus e equipamentos culturais internacionais, colocando o Rio na ponta do mundo. Além disso, há a renovação de áreas anteriormente ligadas as atividades portuárias, colocando para fora moradores de baixa renda que seguem para outros bairros mais distantes da cidade.

Já a arquiteta Ana Luiza Nobre afirma que o futuro é incerto:

- Teremos muitas obras de reparação pela frente, em consequência de tantas obras mal feitas hoje, como a vila do PAN e o Engenhão, que passam por reformas e riscos de desmoronar.

A desapropriação de imóveis

            A desapropriação de imóveis para o novo “Bota-Abaixo” vem sendo criticada veementemente pelo Ministério Público Federal, inclusive acusou a Prefeitura de agir com métodos nazistas nas populações removidas.
            
         O subprocurador geral de Justiça, Leonardo de Souza, afirmou que com Prefeitura marcando as casas das pessoas com a sigla SMH, Secretaria Municipal de Habitação, lembra os nazistas marcando as casas dos judeus. Além disso, o subprocurador lembrou que famílias que não seriam realojadas, hoje estão sendo.

            A truculência, o uso de instrumentos de pressão por parte de agentes da Prefeitura, o baixo valor das indenizações propostas e a realocação em locais muito distantes são as principais queixas dos moradores, que as vezes vão parar  a mais de 30 quilômetros de distância das suas antigas residências.

            As indenizações são feitas através de uma tabela estipulada em 2001, do Prefeito César Maia, ou seja, os valores não sofreram mudança, estando abaixo do mercado devido à inflação e correção de valores.

            A arquiteta Saide Kahtouni afirma que na época do Pereira Passos as remoções eram feitas sem consequências, hoje em dia não é possível minimizar esses impactos, pois sempre há gente em cima, ainda que seja necessário o processo de gentrificação. 

Rio em dois séculos de transformações



Intervenções simultâneas causam impacto no cotidiano dos cariocas 

 Flávia Nunes

     Dois séculos diferentes, mas que têm muito em comum. No início do século XX, a então Capital Federal, o Rio de Janeiro, já apresentava alguns dos problemas conhecidos pelos atuais habitantes da cidade. Alguns deles, por exemplo, são o crescimento desordenado, a carência de transporte, a falta no abastecimento de água, a precária rede de esgotos, e a más condições nos programas de saúde e segurança eram uma realidade incomoda para quem vivia na cidade.

     O período vivido na época foi de uma intensa reforma urbana, realizada na gestão do prefeito Pereira Passos.  Esse momento ficou conhecido pela população e nos livros de história como o Bota-abaixo, uma das maiores e mais famosas reformas que a cidade já havia sofrido. Entretanto, hoje, no século XXI, quem assume o papel realizador de mudanças é o prefeito Eduardo Paes.

O Bota-Abaixo de Pereira Passos promoveu a nova imagem da Capital Federal
Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro


    Apesar da diferença cronológica, é possível comparar os dois períodos pela intensa tentativa de modernização da cidade. De acordo com o urbanista e professor adjunto do Departamento de Análise e Representação da Forma da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU-UFRJ) Rodrigo Cury Paraizo, nos dois períodos, há essa tentativa de apresentar uma imagem moderna e capaz de atrair investimentos internacionais para o país ou para a própria cidade.

— No início do século XX, a cidade era a Capital Federal, representando a imagem do país. Trata-se de manter e renovar seu prestígio como polo cultural e simbólico para atrair investimentos econômicos para a própria cidade e seu estado — afirma o professor Rodrigo Cury.

     Segundo o urbanista e professor do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da UFRJ, apesar de hoje a quantidade de obras serem maiores do que no período anterior, há um senso maior de justiça no modo em que são realizadas.

— Na atualidade temos um número maior de intervenções simultâneas, e em áreas muito distintas da cidade. Graças às experiências anteriores, temos uma percepção mais aguda também das injustiças trazidas pelas intervenções, bem como mecanismos mais eficientes e acessíveis de denúncia e questionamento das ações do poder público. Continuam a ocorrer injustiças; mas muitas são percebidas, denunciadas e, em alguns casos, até mesmo mitigadas ou corrigidas.

     A Cidade Maravilhosa atualmente concentra a atenção de toda a comunidade internacional devido à proximidade das Olimpíadas de 2016. Não somente, ela também foi um dos palcos na Copa do Mundo de 2014. Com grandes eventos, a necessidade de obras de melhorias é necessária, mas causa transtornos para moradores.

     Se a reforma urbana do antigo prefeito transformou a região do centro, hoje, os cariocas vivem em praticamente um canteiro de obras, já que todas as zonas da cidade recebem algum tipo de intervenção. Apesar dos benefícios em longo prazo, os impactos dessas obras simultâneas são sentidos pelas pessoas que necessitam se deslocar diariamente.

     A expansão e desenvolvimento de diferentes serviços, como as obras na Linha 4 do metrô (Barra/General Osório), no Elevado do Joá e a duplicação de vias na Zona Oeste, já afeta o dia a dia de quem precisa passar pela região. Morador da Barra da Tijuca, o estudante de Comunicação Social da PUC-Rio Igor Novello enfrenta diariamente os extensos engarrafamentos na cidade, uma das consequências das obras em seu trajeto.

— Essas intervenções vêm atrapalhando bastante o meu dia a dia. Com as obras do Metrô, por exemplo, a Avenida das Américas está com todos os canteiros tomados por grades, caminhões e homens trabalhando. Pelo menos uma ou duas pistas de cada rua estão tomadas e, por isso, muitos desvios tem que ser feitos, fazendo com que o tráfego de carros fique confuso e o trânsito mais lento.

Esperança no futuro

     O legado para os cariocas no futuro, além da modernização de arenas esportivas, será principalmente refletida na questão do transporte público. O raciocínio de que, se antes, as coisas bem ou mal funcionavam, e, agora, com a intervenção, que agora estão funcionando mal é comum. Porém, os moradores, e também turistas, devem lembrar que irão poder usufruir dessas melhorias no futuro. De acordo com o professor e urbanista Rodrigo Cury Paraizo, é preciso haver a mudança de hábitos dos cidadãos.

É difícil perceber que esses transtornos podem vir a resultar em uma situação melhor no longo prazo, ainda mais se envolver mudanças de hábitos, como, por exemplo, adotar o transporte coletivo em lugar do carro. As obras, em si, são positivas e a cidade deve melhorar com elas.

     No entanto, o urbanista destaca que uma metrópole como o Rio de Janeiro deve estar sempre em transformação, e, portanto, é natural ter obras em andamento. Ele afirma que pelo fato de os administradores públicos negligenciarem tanto a realização dessas obras nas últimas décadas, a coincidência delas no mesmo período que traz tantos transtornos. Além disso, a pressa prejudica também os próprios arquitetos do país.

O que vejo como problemático é que justamente o impulso dado pelos megaeventos porque acaba por sufocar debates e questionamentos que seriam importantes para evitar, ou ao menos mitigar, injustiças. Penso que poderíamos também ter tido mais concursos de arquitetura para os projetos, e que, ao abrir mão deles, perdemos muitas oportunidades de aprendizado e discussão dos profissionais brasileiros.

Instituto Moreira Salles e o Bota-Abaixo

     O momento de transformações urbanas que a cidade carioca viveu nas primeiras décadas do século XX é uma das questões abordadas na exposição ‘Rio: primeiras poses - Visões da cidade a partir da chegada da fotografia (1840-1930)’, evento que acontece no Instituto Moreira Salles. A exposição traz imagens e fotografias do período conhecido como o Bota-abaixo, da gestão do prefeito Pereira Passos.

     Os registros que foram feitos das remoções praticadas naquele período implicou em custos sociais para a população, como o surgimento das favelas com a realocação de pessoas da área central. Segundo o urbanistaRodrigo Cury Paraizo, o período das reformas deveria facilitar a ligação comercial com o restante da cidade.

— Há diversas situações de remoção juridicamente questionáveis em curso, por conta das obras de infraestrutura e de renovação urbana: no Morro da Providência, na Vila Autódromo. As pessoas afetadas não tiveram tempo de recorrer adequadamente à Justiça.

     A partir dos registros feitos por fotógrafos como Marc Ferrez, responsável por importantes documentos visuais no país e único a fazer fotos panorâmicas, e Augusto Malta, primeiro fotógrafo oficial da prefeitura do Rio, durante as reformas urbanísticas de Pereira Passos, é possível conhecer uma cidade que não existe mais. O urbanista Rodrigo Cury ainda explica o motivo pelo qual as pessoas não desejavam se mudar.

— As moradias disponíveis para os removidos são distantes do Centro (mais uma vez, a questão da mobilidade urbana) e das suas próprias redes informais de solidariedade, sem falar na baixa qualidade urbanística desses conjuntos.

     A exposição fica em exibição até o dia 31 de dezembro, de terça a domingo, 11h às 20h. A entrada é gratuita.

A falta de planejamento dificulta a vida dos cariocas


Com as diversas obras para as Olimpíadas de 2016, moradores sofrem com o caos

 Ricardo Conti

Considerado um colírio para os turistas, a Cidade do Rio de Janeiro oferece as mais belas paisagens. A figura do Cristo Redentor e o retrato do Pão de Açúcar estão entre os lugares mais visitados da cidade. Mas a realidade de quem observa o Rio dos pontos mais altos é oposta dos que continuam embaixo.
A reforma urbana na cidade para os Jogos Olímpicos de 2016 prejudica os cariocas que lidam com uma infinidade de problemas. O trânsito caótico, o transporte sobrecarregado e a demora na conclusão das obras refletem a falta de planejamento do Estado. A Cidade já havia passado por essa transformação no final do século vinte. Para seguir os padrões franceses na época, o prefeito Pereira Passos decidiu demolir todos os cortiços para dar espaço a avenidas largas, como a Rio Branco, no Centro, e monumentos, como o Teatro Municipal e a Escola de Belas Artes.

O caos no trânsito reflete as inúmeras obras na cidade
Revista Plano de Contingência

Para o urbanista Luiz Adolfo, especialista na área há mais de vinte anos, o processo de reformulação urbana no governo Pereira Passos apresentou erros. A própria derrubada de monumentos históricos, como o Palácio Monroe onde foi a sede da Câmara dos Deputados na Cinelândia, está entre os exemplos. Segundo Luis o governo de Pereira Passos não soube como ampliar a cidade com uma infraestrutura adequada:
“Eles quiseram se comparar a outros centros mais desenvolvidos por conta da ampliação da cidade. Não sabemos se houve um estudo aprofundado para a construção desses espaços, e se foi a melhor alternativa.”
A falta de planejamento também se reflete na realidade dos cariocas nos dias de hoje. O morador do bairro Grajaú, Zona Norte do Rio, Matheus Palmieri relata sua dificuldade no trânsito para chegar às sete horas na PUC.
“Parte da minha rua foi interditada por conta das obras na Praça Niterói, onde a proposta é de construir um reservatório que gere controle das enchentes na Grande Tijuca. Todo dia pego um trânsito desnecessário e a quantidade de veículos não diminui.”
Luiz afirma que em, construções nas cidades do exterior, como Londres e Paris, as obras visam a projetar uma qualidade de vida melhor para os cidadãos. No Rio, não existe isso. As demolições e reconstruções tomam conta da cidade e por isso não viabiliza o desenvolvimento:
“Nas cidades do exterior as obras visam o futuro. Aqui você derruba, faz a Presidente Vargas, faz a Rio Branco várias vezes. Já quebraram a Rio Branco mais de cinco vezes em quinze anos.”




Para solucionar problemas antigos, Governo carioca repete o passado



            População do Rio de Janeiro sofre com medidas que lembram o ‘Bota-Abaixo’

Matheus Dantas

     No ano em que completa 450 anos, o Rio de Janeiro enfrenta problemas sociais que se arrastam há décadas, e, em alguns aspectos, as medidas dos mais recentes governos parecem repetir o que foi feito no início do Século XX, no mandato de Francisco Pereira Passos. Visando a modernização da ex-capital do Brasil, foi posto em prática o “Bota-Abaixo”, momento em que, para alcançar as melhorias urbanísticas e sanitárias, o Rio de Janeiro passou por profundas transformações. As reformas tiveram um alto custo social, como a exclusão dos mais pobres do centro e a formação das primeiras favelas.


Vila Autódromo, no Rio de Janeiro, deu lugar à Vila Olímpica
Júlio César Guimarães/UOL


     Com a confirmação da sede da Copa do Mundo de 2010 e as Olimpíadas de 2016, o Rio de Janeiro, voltou a se tornar um grande canteiro de obras, com grandes projetos de revitalização de áreas abandonadas pelo Estado, mas de grande valor imobiliário. Seja na retirada dos cortiços para a construção da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, em 1905, ou na posse da Vila Autódromo, nos últimos anos, a semelhança se encontra na exclusão da população de baixa renda, obrigada a deixar os locais.

     Os legados econômicos e sociais que os grandes eventos trouxeram para a população e para o país como um todo foram a justificativa dos governantes para as remoções forçadas e investimentos feitos. Mas para o engenheiro civil e arquiteto Gustavo França Liberali, o Rio foi mais prejudicado do que beneficiado até agora.

     - As obras deixaram como legado uma cidade mais dividida e privatizada do que antes. Muitas remoções aconteceram de maneira polêmica e não vejo os projetos vindo a criar uma cidade mais integrada – afirmou.

     A escolha da Barra da Tijuca como o local que receberá a maior quantidade de provas olímpicas é um dos principais problemas para Gustavo Liberali. O engenheiro afirma que obras como a duplicação do Elevado do Joá e a chegada do metrô no bairro não terão um impacto tão grande para maior parte da população.

     - Caso o projeto que colocava a Ilha do Fundão como coração das Olímpiadas no Rio tivesse sido tocado, acredito que os impactos positivos em mobilidade urbana seriam muito maiores, atingindo a Zona Norte e a Baixada Fluminense – avaliou Gustavo.

     Um dos modelos implantados para melhorar a mobilidade urbana do Rio de Janeiro foi os corredores expressos de ônibus. Apesar dos problemas de lotação nos BRTs Transoeste e Transcarioca, que ligam o bairro de Campo Grande à Barra da Tijuca e ao aeroporto Galeão, o sistema agradou a doméstica Joana Fátima Gonçalves, de 52 anos.

    Moradora de Santa Cruz, Fátima trabalha na Barra da Tijuca há sete anos. Ela afirma que o BRT melhorou sua ida e volta para o trabalho. Ao pegar o ônibus expresso na estação Gastão Rangel e ir até a estação Américas Park, seu tempo de viagem por dia diminuiu em cerca de 1h30 por dia.
    
    - Antes de o BRT chegar onde eu moro, em 2012, eu demorava duas horas para ir e voltar do trabalho. Até porque eu tinha que pegar dois ônibus. Agora eu pego só o BRT expresso, e faço a viagem em 50 minutos – disse Fátima, que também lembrou o sistema ainda sofre com a superlotação.

A história se repete, os prejudicados também

     Para o professor de História do Brasil, Igor Guarda Rabello, as motivações que levaram as atuais mudanças no cenário do Rio de Janeiro são as mesmas que promoveram o “Bota-Abaixo”, no início do século XX. A retirada da população mais pobre das áreas nobre tem seus motivos.

    - A questão da valorização imobiliária também é importante para o despejo forçado das pessoas da região portuária para a construção do Porto Maravilha remete à extinção dos cortiços e exclusão da população mais pobre do Centro do Rio de Janeiro nos anos de 1900 – afirmou.

     Ainda segundo o professor, a população do Rio de Janeiro também se comportou de maneira parecida nos dois momentos. No mandato do prefeito Francisco Pereira Passos, a população reagiu com o movimento que ficou conhecido como a Revolta da Vacina, que deixou mais de 30 pessoas mortas. Para Igor Rabello, as manifestações de julho de 2013 também foram uma resposta às praticas do Governo.



quinta-feira, 28 de maio de 2015

OBRAS PARA AS OLIMPÍADAS DESTROEM COMUNIDADES CARIOCAS


Projeto de urbanização e integração de favelas dá lugar a demolições

Gustavo Santana

vila união curicica
Moradores da favela Vila União de Curicica protestam contra obras olímpicas
Crédito: Blog do Jacaré
Uma série de ações de “bota-abaixo”, ou, em outras palavras, demolições, tem sido tomadas para a geração de novos espaços e construções desde que o Rio de Janeiro foi anunciado como sede das Olimpíadas de 2016. A derrubada da Perimetral e a destruição, parcial ou inteira, de determinadas comunidades, espalhadas especialmente pela Zona Oeste, fazem parte das iniciativas. Seguidas desapropriações ocorreram para dar lugar às obras de infraestrutura de transporte para os Jogos. Algumas favelas, sem alarde midiático, foram demolidas e outras desapareceram por completo. Vila União de Curicica e Vila Autódromo são exemplos. A primeira, antes de ter parte destruída, foi incluída no projeto Morar Carioca, que consta como parte central do legado olímpico.

O arquiteto e urbanista Fábio Silva Alves, professor da UFF e da UFRRJ, fala sobre a ineficiência do projeto. 
“O problema do Morar Carioca é bem mais grave que qualquer outro empreendimento olímpico. O programa vive de promessas desde o início. Agora, é para inglês ver mesmo. É audacioso, mas não funcionou. O projeto é de urbanização de favelas e foi agrupado ao legado olímpico, que tanto falam. No fundo serviu mais para politicagem, porque fizeram uma algazarra quando o Eduardo Paes tentava a eleição. Mas deixaram de lado, nada foi feito, e até a imprensa abandonou o assunto. Um absurdo total. A intenção do Morar é brilhante, e se existisse o apoio prometido da prefeitura muitas comunidades já estariam integradas de verdade à cidade, com transporte e saneamento básicos decentes. E o engraçado é que cortaram investimentos, só que a propaganda que se faz em cima do projeto ainda é enorme. Alguém precisa mostrar que não está funcionando há um tempo. Está tudo parado e os escritórios de arquitetura contratados estão de mãos atadas”, disse. 
A preparação para os Jogos está transformando o Rio e redesenhando dia após dia seus espaços arquitetônicos, culturais e sociais. Neste sentido, as administrações dos prefeitos Pereira Passos, responsável pelo primeiro “bota-abaixo”, e Eduardo Paes se assemelham em muitos aspectos, sobretudo, no social. Na época de Passos, os projetos de urbanização que envolviam a cidade do Rio de Janeiro não levaram em consideração a população pobre, que era expulsa para os morros. O objetivo era tirá-los das áreas centrais, para que os espaços ocupados fossem demolidos e dessem lugar aos planos arquitetônicos de modernização do município. Com isso, na época, houve desassistência governamental seguida da imediata marginalização das pessoas que perderam casas. Não havia lugar para abriga-los, então, a ocupação de morros passou a ser conveniente. Aos que ficavam, restava a alternativa de se espremer em cortiços precários espalhados pelas áreas centrais da cidade. Hoje, o problema difere pouco. Seguidas desapropriações de comunidades ocorreram para possibilitar as obras de infraestrutura de transporte para os Jogos. Além disso, Paes anunciou, há dois anos, que a urbanização de todas as comunidades do Rio seria executada até 2020, como aspecto fundamental do legado. No entanto, o Morar Carioca, que encabeça a ação, foi desmantelado. Apesar de versões fragmentadas ainda estarem em andamento, as estruturas de financiamento e participação do projeto, orientadas para 2016, não serão respeitadas. A pouco mais de um ano das Olimpíadas, o Morar Carioca repentinamente deixou a agenda política da prefeitura do Rio. 

MAIS PROBLEMAS

Há ainda outra importante questão que a prefeitura será incapaz de resolver. A despoluição da Baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freiras, que receberão competições aquáticas. Na semana passada, o prefeito anunciou algumas ações reconhecidamente paliativas, que não resolvem a questão da poluição nas áreas: o sistema de Ecobarcos e Ecobarreiras foi remodelado. A ação se configura mais como uma tentativa do Governo do Estado de dar alguma satisfação à imprensa, sobre a despoluição, do que uma ação concreta para resolver o problema. Se a remodelagem funcionar, como prometem, a estética da água vai melhorar. Se falhar, as competições correm o sério risco de serem realizadas em águas sujas, porque não haverá tempo suficiente para a implantação de novas tentativas de resolução do impasse.