terça-feira, 9 de junho de 2015

Obras para Rio-2016 lembram antigos tempos de mudança da cidade

Transformações para Olimpíadas retomam época do Bota-Abaixo do século XX

Matheus Palmieri


Eleito sede dos jogos Olímpicos de 2016, o Rio de Janeiro e sua população vêm sofrendo com obras faraônicas que prometem ligar a cidade entre si e aos locais de competição. Apesar de aparentarem ser um avanço para a ex capital federal e para a população, as transformações do espaço urbano carioca correm contra o tempo para que possam ser úteis durante os Jogos, e assim, a Cidade Maravilhosa se tornou um canteiro de obras nos últimos anos.

O Porto Maravilha é um dos principais pontos de reurbanização da cidade
Foto: Cariocadorio's Blog

As mudanças são tão vastas que é possível fazer uma comparação com a primeira grande alteração urbana da cidade, no começo do século passado, o “Bota-Abaixo”. Durante o governo de Pereira Passos, o Rio, que não era ponto de interesse de navegantes devido a grande quantidade de doenças encontradas em seu porto, teve sua estrutura e base totalmente alteradas para poder se tornar uma cidade internacional. A capital da República tinha uma arquitetura portuguesa, e diversos edifícios demolidos para dar lugar às novas construções com uma arquitetura “parisiense”. A construção da Avenida Rio Branco, também nessa época, incluiu a implosão de parte do Morro do Castelo, histórico local do início da cidade no século XVI. Para Fabiana Izaga, vice-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, a construção da avenida foi importante para o desenvolvimento futuro da cidade.

- Isso alterou o vetor de crescimento da cidade. No começo, ela visava ir para a Zona Norte, e tinha Botafogo, a Glória como final do Rio. Após a construção da Central, a cidade se volta para orla, para as praias. O que mudou a identidade do Rio de Janeiro – afirmou Fabiana, que também é professora da UFRJ.

As obras atuais também visam unir zonas da cidade, que possuem difícil acesso em dias comuns, de uma forma mais imediata e direta. Os BRTs são a principal medida adotada pelo governo de Eduardo Paes para unir essas zonas. Há também dois projetos em andamento que pretendem facilitar o cidadão a fazer o trajeto Zona Sul-Barra. As obras da Linha 4 do Metrô, vão ligar a Barra a Ipanema. Outra medida que vai facilitar o trajeto é a ampliação do Elevado do Joá, que conecta a Gávea à Barra. O estudante Ricardo Conti, que mora na Barra e estuda na Zona Sul, afirmou que essas obras estão dificultando a vida dos moradores:

            - Antigamente, quando não existiam essas obras do BRT, eu chegava tranquilamente na faculdade 6h40, 6h50, no máximo. Essas obras dificultam muito a mobilidade na Barra da Tijuca, e ainda tem a construção do Metrô, logo depois da faixa do BRT.

 Futuro em dúvida

            Apesar de no papel as obras parecerem bastante promissoras, o motivo delas é o que as ameaça como legado. Grandes partes das transformações em que o Rio de Janeiro passa são devido às Olimpíadas obras precisam estar prontas para os jogos. Mas, o que parecia ser um grande motivo para o crescimento do Rio, desde o anúncio como sede dos jogos, se mostra agora como um vilão para a continuidade do crescimento da cidade mais ou menos como uma metrópole mundial.

            Essa pressa para conclusão pode resultar em projetos mal elaborados e realizações longe do idealizado. Com isso, Fabiana alerta uma prática comum em grande parte das obras de projeto olímpico:

            - Como os projetos são fechados apenas a empresa vencedora da licitação e o Governo, essa companhia pode pedir alguma alteração do projeto e, consequentemente, uma maior verba para a realização da obra. Isso é muito ruim porque além de ficar alterando o projeto e atrasando as obras, dá carta branca para as empresas cobrarem o que quiserem pelas obras.

            Com esse cenário de pressa, o legado do Rio pode não existir. Ou seja, os últimos anos em que grande parte da cidade conviveu com um transito caótico, poeira e obras intermináveis podem não dar nenhum retorno para o desenvolvimento da Cidade Maravilhosa.
Obras atuais lembram outros períodos fora o Bota-Abaixo.

            Apesar da forte associação com a reforma urbana de Pereira Passos, do começo século passado, as atuais obras em que o cidadão carioca convive traz lembranças de outra importante intervenção na mobilidade urbana do Rio de Janeiro. As medidas de Carlos Lacerda, quando era governador do Estado da Guanabara, tinham esse caráter de união de diversas áreas da cidade.

            Lacerda não substituiu espaços, como Pereira Passos fez, mas sim, criou vias para que os cidadãos pudessem trafegar em diversas áreas da cidade de uma forma mais direta e dinâmica. Os túneis Rebouças e Santa Bárbara foram criados durante seu mandato. Fabiana Izaga, do IAB, afirma que essa comparação é possível:

            - Naquela época, para ir da Zona Norte para Zona Sul, era preciso passar por todo Centro. Com a criação desses túneis, ficou muito mais prático ir de uma região a outra.

            

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