Desde
Pereira Passos o Rio de Janeiro sofre transformações conturbadoras
Marcela Salgueiro
Durante
os séculos XIX e XX, o Rio de Janeiro cresceu sem controle. No ano de 1808 a
Família Real chegou ao Brasil, tendo um aumento na população de modo
considerável. Com mais de 500 mil habitantes já no início do século XX, o Prefeito
Pereira Passos começou a tentar a modernizar o Rio de Janeiro, capital federal
da época, para que ela pudesse crescer. Em um período de cerca de 100 anos, a
cidade cresceu, se modernizou, porém de um jeito com que os moradores da cidade
não ficassem satisfeitos. Os problemas que hoje podem ser vistos claramente
como a mobilidade urbana e a violência só aumentam, e os cariocas esperam que
as novas reformas promovidas pelo Prefeito Eduardo Paes realmente mude a cidade
para melhor.
As
novas reformas, conhecidas como o novo “Bota-Abaixo”, chamam a atenção pelos
transtornos que vem causado no cotidiano da população. Para a arquiteta e historiadora Ana Luiza Nobre, a maior semelhança entre os dois “Bota-Abaixo” é
o ímpeto modernizador que marcou os dois períodos: a ênfase no "embelezamento"
da cidade segundo padrões importados e a urgência que justifica tudo, como no
caso das remoções discutíveis.
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| Obras do Metrô na Linha 4 Sul: transtornos cotidianos para os cariocas Viviane Vieira |
A
estudante Yulli Dias moradora do Condomínio Rio 2, em Curicica, afirma que as
obras tem prejudicado muito a vida dela. Antes ela não pegava trânsito em
alguns lugares que hoje em dia o tráfego é insustentável, complicando inclusive
a entrada no condomínio. Ela também reclama da segurança:
-
A segurança diminuiu muito também porque é muita gente rodando por essa área,
que antigamente não existia. O lugar que já não possuía muita segurança, agora
tem menos ainda com vários canteiros de obra e tapumes, tampando a visibilidade
mais adiante e a iluminação do local.
Porém,
Yulli espera que com o final das obras, todo esse transtorno tenha valido a
pena, e que não seja mais uma obra largada pela metade porque não deu tempo de
terminar, como outras que já aconteceram na cidade.
A
arquiteta Saide Kahtouni afirma que não há falta de plano no novo
“Bota-Abaixo”:
-
Para montar uma estrutura como essa, e que as prioridades estão claras, que no
caso é a renovação urbana com pequena importância dada ao morador simples de
habitações precárias, em áreas que terão nova centralidade, padrão elevado
diante da nova cidade, reformada, renovada para destaque na lista das cidades
globais.
Saide ainda se posiciona sobre o “Bota-Abaixo”
na época de Pereira Passos:
- O “Bota-Abaixo” seguiu as mesmas
premissas de embelezamento e modernização internacionais, através do estilo neo-clássico
e do ecletismo na Arquitetura. Porém, não se preocupou, assim como hoje, com as
pessoas mais desfavorecidas.
O Futuro Incerto
O
futuro do novo “Bota-Abaixo” é algo questionável por todos os cidadãos
cariocas. Com obras incompletas anteriormente, ou com problemas de construção
como é o caso do Engenhão, o legado dessas transformações vem movimentando a
vida dos cariocas.
A
Arquiteta Saide Kahtouni afirma que um enorme número de obras está sendo feito
para favorecer a cidade:
-
Existem grandes obras de infra-estrtura como novas linhas de metrô alcançando a
Barra e corredores de transporte coletivo. Também novos museus e equipamentos
culturais internacionais, colocando o Rio na ponta do mundo. Além disso, há a renovação
de áreas anteriormente ligadas as atividades portuárias, colocando para fora
moradores de baixa renda que seguem para outros bairros mais distantes da
cidade.
Já
a arquiteta Ana Luiza Nobre afirma que o futuro é incerto:
-
Teremos muitas obras de reparação pela frente, em consequência de tantas obras
mal feitas hoje, como a vila do PAN e o Engenhão, que passam por reformas e
riscos de desmoronar.
A desapropriação
de imóveis
A
desapropriação de imóveis para o novo “Bota-Abaixo” vem sendo criticada veementemente
pelo Ministério Público Federal, inclusive acusou a Prefeitura de agir com
métodos nazistas nas populações removidas.
O subprocurador
geral de Justiça, Leonardo de Souza, afirmou que com Prefeitura marcando as
casas das pessoas com a sigla SMH, Secretaria Municipal de Habitação, lembra os
nazistas marcando as casas dos judeus. Além disso, o subprocurador lembrou que
famílias que não seriam realojadas, hoje estão sendo.
A
truculência, o uso de instrumentos de
pressão por parte de agentes da Prefeitura, o baixo valor das indenizações
propostas e a realocação em locais muito distantes são as principais queixas
dos moradores, que as vezes vão parar a
mais de 30 quilômetros de distância das suas antigas residências.
As
indenizações são feitas através de uma tabela estipulada em 2001, do Prefeito
César Maia, ou seja, os valores não sofreram mudança, estando abaixo do mercado
devido à inflação e correção de valores.
A
arquiteta Saide Kahtouni afirma que na época do Pereira Passos as remoções eram
feitas sem consequências, hoje em dia não é possível minimizar esses impactos,
pois sempre há gente em cima, ainda que seja necessário o processo de
gentrificação.

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