Projeto
de urbanização e integração de favelas dá lugar a demolições
Gustavo Santana
Moradores da favela Vila União de Curicica protestam contra obras olímpicas
Crédito: Blog do Jacaré
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Uma
série de ações de “bota-abaixo”, ou, em outras palavras, demolições, tem sido tomadas
para a geração de novos espaços e construções desde que o Rio de Janeiro foi
anunciado como sede das Olimpíadas de 2016. A derrubada da Perimetral e a
destruição, parcial ou inteira, de determinadas comunidades, espalhadas
especialmente pela Zona Oeste, fazem parte das iniciativas. Seguidas
desapropriações ocorreram para dar lugar às obras de infraestrutura de
transporte para os Jogos. Algumas favelas, sem alarde midiático, foram
demolidas e outras desapareceram por completo. Vila União de Curicica e Vila
Autódromo são exemplos. A primeira, antes de ter parte destruída, foi incluída
no projeto Morar Carioca, que consta como parte central do legado olímpico.
O
arquiteto e urbanista Fábio Silva Alves, professor da UFF e da UFRRJ, fala
sobre a ineficiência do projeto.
“O
problema do Morar Carioca é bem mais grave que qualquer outro empreendimento
olímpico. O programa vive de promessas desde o início. Agora, é para inglês ver
mesmo. É audacioso, mas não funcionou. O projeto é de urbanização de favelas e
foi agrupado ao legado olímpico, que tanto falam. No fundo serviu mais para
politicagem, porque fizeram uma algazarra quando o Eduardo Paes tentava a
eleição. Mas deixaram de lado, nada foi feito, e até a imprensa abandonou o
assunto. Um absurdo total. A intenção do Morar é brilhante, e se existisse o
apoio prometido da prefeitura muitas comunidades já estariam integradas de
verdade à cidade, com transporte e saneamento básicos decentes. E o engraçado é
que cortaram investimentos, só que a propaganda que se faz em cima do projeto ainda
é enorme. Alguém precisa mostrar que não está funcionando há um tempo. Está
tudo parado e os escritórios de arquitetura contratados estão de mãos atadas”,
disse.
A
preparação para os Jogos está transformando o Rio e redesenhando dia após dia
seus espaços arquitetônicos, culturais e sociais. Neste sentido, as
administrações dos prefeitos Pereira Passos, responsável pelo primeiro
“bota-abaixo”, e Eduardo Paes se assemelham em muitos aspectos, sobretudo, no
social. Na época de Passos, os projetos de urbanização que envolviam a cidade
do Rio de Janeiro não levaram em consideração a população pobre, que era
expulsa para os morros. O objetivo era tirá-los das áreas centrais, para que os
espaços ocupados fossem demolidos e dessem lugar aos planos arquitetônicos de
modernização do município. Com isso, na época, houve desassistência
governamental seguida da imediata marginalização das pessoas que perderam
casas. Não havia lugar para abriga-los, então, a ocupação de morros passou a
ser conveniente. Aos que ficavam, restava a alternativa de se espremer em
cortiços precários espalhados pelas áreas centrais da cidade. Hoje, o problema
difere pouco. Seguidas desapropriações de comunidades ocorreram para possibilitar
as obras de infraestrutura de transporte para os Jogos. Além disso, Paes
anunciou, há dois anos, que a urbanização de todas as comunidades do Rio seria executada
até 2020, como aspecto fundamental do legado. No entanto, o Morar Carioca, que
encabeça a ação, foi desmantelado. Apesar de versões fragmentadas ainda estarem
em andamento, as estruturas de financiamento e participação do projeto,
orientadas para 2016, não serão respeitadas. A pouco mais de um ano das
Olimpíadas, o Morar Carioca repentinamente deixou a agenda política da
prefeitura do Rio.
MAIS PROBLEMAS
Há
ainda outra importante questão que a prefeitura será incapaz de resolver. A
despoluição da Baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freiras, que receberão
competições aquáticas. Na semana passada, o prefeito anunciou algumas ações
reconhecidamente paliativas, que não resolvem a questão da poluição nas áreas:
o sistema de Ecobarcos e Ecobarreiras foi remodelado. A ação se configura mais
como uma tentativa do Governo do Estado de dar alguma satisfação à imprensa,
sobre a despoluição, do que uma ação concreta para resolver o problema. Se a
remodelagem funcionar, como prometem, a estética da água vai melhorar. Se
falhar, as competições correm o sério risco de serem realizadas em águas sujas,
porque não haverá tempo suficiente para a implantação de novas tentativas de
resolução do impasse.







