quinta-feira, 28 de maio de 2015

OBRAS PARA AS OLIMPÍADAS DESTROEM COMUNIDADES CARIOCAS


Projeto de urbanização e integração de favelas dá lugar a demolições

Gustavo Santana

vila união curicica
Moradores da favela Vila União de Curicica protestam contra obras olímpicas
Crédito: Blog do Jacaré
Uma série de ações de “bota-abaixo”, ou, em outras palavras, demolições, tem sido tomadas para a geração de novos espaços e construções desde que o Rio de Janeiro foi anunciado como sede das Olimpíadas de 2016. A derrubada da Perimetral e a destruição, parcial ou inteira, de determinadas comunidades, espalhadas especialmente pela Zona Oeste, fazem parte das iniciativas. Seguidas desapropriações ocorreram para dar lugar às obras de infraestrutura de transporte para os Jogos. Algumas favelas, sem alarde midiático, foram demolidas e outras desapareceram por completo. Vila União de Curicica e Vila Autódromo são exemplos. A primeira, antes de ter parte destruída, foi incluída no projeto Morar Carioca, que consta como parte central do legado olímpico.

O arquiteto e urbanista Fábio Silva Alves, professor da UFF e da UFRRJ, fala sobre a ineficiência do projeto. 
“O problema do Morar Carioca é bem mais grave que qualquer outro empreendimento olímpico. O programa vive de promessas desde o início. Agora, é para inglês ver mesmo. É audacioso, mas não funcionou. O projeto é de urbanização de favelas e foi agrupado ao legado olímpico, que tanto falam. No fundo serviu mais para politicagem, porque fizeram uma algazarra quando o Eduardo Paes tentava a eleição. Mas deixaram de lado, nada foi feito, e até a imprensa abandonou o assunto. Um absurdo total. A intenção do Morar é brilhante, e se existisse o apoio prometido da prefeitura muitas comunidades já estariam integradas de verdade à cidade, com transporte e saneamento básicos decentes. E o engraçado é que cortaram investimentos, só que a propaganda que se faz em cima do projeto ainda é enorme. Alguém precisa mostrar que não está funcionando há um tempo. Está tudo parado e os escritórios de arquitetura contratados estão de mãos atadas”, disse. 
A preparação para os Jogos está transformando o Rio e redesenhando dia após dia seus espaços arquitetônicos, culturais e sociais. Neste sentido, as administrações dos prefeitos Pereira Passos, responsável pelo primeiro “bota-abaixo”, e Eduardo Paes se assemelham em muitos aspectos, sobretudo, no social. Na época de Passos, os projetos de urbanização que envolviam a cidade do Rio de Janeiro não levaram em consideração a população pobre, que era expulsa para os morros. O objetivo era tirá-los das áreas centrais, para que os espaços ocupados fossem demolidos e dessem lugar aos planos arquitetônicos de modernização do município. Com isso, na época, houve desassistência governamental seguida da imediata marginalização das pessoas que perderam casas. Não havia lugar para abriga-los, então, a ocupação de morros passou a ser conveniente. Aos que ficavam, restava a alternativa de se espremer em cortiços precários espalhados pelas áreas centrais da cidade. Hoje, o problema difere pouco. Seguidas desapropriações de comunidades ocorreram para possibilitar as obras de infraestrutura de transporte para os Jogos. Além disso, Paes anunciou, há dois anos, que a urbanização de todas as comunidades do Rio seria executada até 2020, como aspecto fundamental do legado. No entanto, o Morar Carioca, que encabeça a ação, foi desmantelado. Apesar de versões fragmentadas ainda estarem em andamento, as estruturas de financiamento e participação do projeto, orientadas para 2016, não serão respeitadas. A pouco mais de um ano das Olimpíadas, o Morar Carioca repentinamente deixou a agenda política da prefeitura do Rio. 

MAIS PROBLEMAS

Há ainda outra importante questão que a prefeitura será incapaz de resolver. A despoluição da Baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freiras, que receberão competições aquáticas. Na semana passada, o prefeito anunciou algumas ações reconhecidamente paliativas, que não resolvem a questão da poluição nas áreas: o sistema de Ecobarcos e Ecobarreiras foi remodelado. A ação se configura mais como uma tentativa do Governo do Estado de dar alguma satisfação à imprensa, sobre a despoluição, do que uma ação concreta para resolver o problema. Se a remodelagem funcionar, como prometem, a estética da água vai melhorar. Se falhar, as competições correm o sério risco de serem realizadas em águas sujas, porque não haverá tempo suficiente para a implantação de novas tentativas de resolução do impasse.


terça-feira, 26 de maio de 2015

Obras de Paes relembram período conturbado do Rio de Pereira Passos



              Comparações são inevitáveis para os cariocas que sofrem com as obras

Diego Mello 
            
Principal via do Centro, Av. Rio Branco, está em obra
 (Fernando Frazão/Agência Brasil)


            Restando menos de 500 dias para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, o Rio de Janeiro vive um momento de transformação. Obras são feitas em diversos pontos da cidade, modificando – para o bem e para o mal - o dia a dia dos cariocas. O período de mudanças, porém, não é novidade para a Cidade Maravilhosa. No início do século XX, o então prefeito Pereira Passos realizou uma reforma urbana no Centro, que ficou conhecida como “bota-abaixo”. Em 2015, as comparações entre o atual prefeito Eduardo Paes e Passos são inevitáveis.
            Até mesmo quem faz parte da equipe da Prefeitura do Rio de Janeiro reconhece isso. O urbanista Roberto Ainbinder, responsável pelo setor de Projetos Urbanos da Empresa Olímpica Municipal (EOM), órgão municipal responsável pela organização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, afirma que os dois prefeitos têm a “ambição de elevar a cidade a um status de cidade global”. Enquanto Passos criou um eixo comercial entre o Centro e o restante da cidade, Roberto vê a missão de Paes como mais “desafiadora”.
“Temos uma cidade mais espalhada, com uma população muito maior e maiores desigualdades sociais. Paes resgata para a cidade, através do Porto Maravilha, este mesmo centro esgotado, vítima de um crescimento ‘desplanejado’ da cidade, que provocou o abandono da região portuária”, disse.
            O período de “bota-abaixo” de Pereira Passos foi de bastante sofrimento para os moradores do Rio de Janeiro que moravam na região central da cidade. Em 2015, a situação não é diferente. Em meio às obras, os cariocas acabam sofrendo com diversos fatores, como o aumento do trânsito, os transportes públicos sobrecarregados e a insegurança. Um dos que sofrem é o jornalista Marcelo Rodrigues. A ida ao trabalho, na Barra da Tijuca, tem demorado o dobro de tempo do que o costume.
            “Saía de casa em Copacabana e levava 30 minutos para chegar ao trabalho. Agora, tem dias que levo mais de uma hora. E na volta é a mesma coisa”, reclamou.
            Roberto Ainbinder concorda que as obras na cidade têm alterado o modo de vida dos cariocas. Segundo ele, o momento de tantas transformações é inédito no Rio de Janeiro. O urbanista, porém, entende que o transtorno mostra que algo está sendo mudado na cidade.  
“Toda transformação exige sacrifício. Nunca a cidade viveu um momento como este, de transformações simultâneas em tão curto período de tempo. Não há como não incomodar. A boa notícia é que o incômodo tem data e hora para terminar”, afirmou.

Futuro de orgulho?

            Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016 estão batendo na porta do Rio de Janeiro e, assim como na Copa do Mundo, a organização é vista com descrédito. Muitas pessoas afirmam que a cidade não receberá um legado após os eventos esportivos.  É o que pensa o urbanista e arquiteto Ephim Shluger.
Em entrevista ao programa “Observatório da Imprensa”, ele se mostrou preocupado com o legado que será deixado para o Rio de Janeiro. “Os legados de Barcelona em 1992 foram urbanisticamente aprovados. Em Londres, o legado era sobre o critério da sustentabilidade. Preocupa-me muito nós não termos parâmetros claros sobre o legado desse investimento público que estamos fazendo”.
Roberto Ainbinder, por outro lado, entende que o Rio de Janeiro se servirá das Olimpíadas. Para ele, a própria candidatura da cidade para o evento mostra isso, com um DNA “da transformação e do legado”. “Porque ganhamos a candidatura dos Jogos de 2016 de cidades já preparadas e infraestruturadas? Exatamente pelos nossos problemas e pela oportunidade de transformação da cidade”.
Ainbinder acredita que a história da transformação do Rio acontece diante de nós. “Em minha opinião, já dá para começar a falar com orgulho das mudanças da cidade”, concluiu.

Rio 2016: os projetos do legado

Roberto Ainbinder é responsável pelo setor de Projetos Urbanos do Instituto Rio 2014-2016, órgão municipal responsável pela organização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016. Em entrevista, ele falou sobre as obras para o grande evento esportivo do ano. Para Ainbinder, “a cidade deve se servir dos Jogos e não os Jogos da cidade”.
O urbanista usou como exemplo de grande transformação no Rio de Janeiro a Praça Mauá. A região ainda está em obra, mas quem passa por lá, já vê algumas mudanças com o fim do Elevado da Perimetral. O local ainda terá dois museus importantes para a cidade. O Museu de Arte do Rio (MAR) já está em funcionamento, e, em breve, será inaugurado o Museu do Amanhã.
 “A Praça Mauá é um pequeno e emblemático exemplo sensorial de tudo isso que estamos falando. É outra paisagem sem a Perimetral e a balbúrdia de carros e pistas a sua volta”, disse. “A derrubada da Perimetral marca uma mudança importante de paradigma, privilegiando as pessoas em detrimento do automóvel”, completou.
De acordo com Ainbinder, o Rio de Janeiro tem “inúmeros projetos de legado”. Com a chegada de novas linhas BRTs e VLTs, o urbanista estima que, após 2016, 60% da população se desloque em transporte de alta capacidade. Em 2010, eram 17%. 

Jogos Olímpicos, claro, não são feitos sem instalações esportivas. Segundo Ainbinder, os locais que estão sendo construídos são apenas os “indispensáveis” para o evento. Algumas instalações, porém, serão reutilizadas, como a Arena de Handebol. Totalmente desmontável, ela se transformará em quatro escolas públicas ao fim da competição. 

Novo “Bota-Abaixo”, antigos problemas no Rio





Um século depois, cidade  passa por uma nova reforma

 Wallace Colares


    O "Bota-Abaixo"  era  assim que o povo  chamava quando queria  se referir  a  reforma urbana  acontecida na gestão do prefeito Pereira Passos, na  cidade  do Rio de Janeiro, no início do século XX. Hoje, um século depois do famoso “Bota-Abaixo”, a cidade passa por mais um processo de reforma urbana.

    Esse nome foi dado porque muitas moradias foram literalmente jogadas para baixo, em especial o Morro do Castelo, localizado no coração do Centro da cidade. Em 1902, o então presidente, Rodrigues Alves delega ao prefeito do Rio a tarefa de transformar a cidade (Capital Federal, na época), numa nova “Paris”, de forma que atendesse aos padrões que a modernidade impunha as grandes cidades.

Palácio Monroe fazia parte da antiga Avenida Central, construída no início do século passado
Divulgação

    O atual cenário do Rio em relação ao crescimento desordenado das favelas teve origem no período citado acima, e a tendência é que aumente com as constantes mudanças ocorridas. Segundo o urbanista formado pela UFF Lucas Faulhaber, o que ocorre hoje em dia é o mesmo que no passado: remoção dos pobres.

    Nos tempos de Pereira Passos, coube ao renomado sanitarista Oswaldo Cruz a missão de transformar a “Cidade da Morte” na “Cidade Maravilhosa”. Vacinação obrigatória, saneamento básico, abastecimento de água estavam entre as medidas tomadas pelo sanitarista. De acordo com Lucas, no passado, a desculpa para a remoção era por falta de higiene, hoje em dia são os grandes eventos na cidade.

     O urbanista afirma que mesmo sem os megaeventos, as remoções são antigos desejos da elite carioca. Programas governamentais como o Minha casa, Minha vida têm tirado a população pobre das áreas mais valorizadas e deslocado para áreas periféricas.

      Nesta época do primeiro “Bota-Abaixo”, a cidade possuía pouco menos que um milhão de habitantes, tendo uma grande quantidade de negros (ex-escravos e seus descendentes), de pessoas vindas de outras regiões que migravam do campo em busca de oportunidades de trabalho nas fábricas e moinhos ou nas atividades portuárias vivendo bem no Centro da cidade
   
    Um século depois, a população carioca cresceu de forma acelerada e hoje  possui pouco mais de 16 milhões de habitantes. E mesmo com o passar de mais de cem anos, a população negra continua concentrada nas áreas mais pobres da cidade e sofre diariamente com os descasos das autoridades e com o preconceito das elites.

   As obras nos Rio de Janeiro têm prejudicado a vida de grande parte da população. Fabiana Alves, 27 anos, é moradora do bairro de Deodoro, no subúrbio do Rio.  “Sofro diariamente com os problemas causados pelas obras das olimpíadas. Tanto em casa como indo pro trabalho o estresse é garantido. Moro na parte que chamam de “inferninho”, próximo ao campo do Gericinó e de grande parte do Complexo Esportivo de Deodoro.”
     “ Acho que se tivesse um melhor planejamento seria melhor. Por muito tempo eu via os trabalhadores andando pra lá e pra cá sem fazer nada. Mas de um tempo pra cá, talvez pelo atraso, a confusão é intensa. As máquinas quebram tudo, inclusive as ruas, que ficam cheias de buraco. É comum sair de casa pela manhã e ver vários carros e ônibus congestionados no trânsito que dura horas.”
     “ Como moro um pouco longe da estação e os ônibus não andam, pegava moto táxi até a na estação de Deodoro. E mesmo assim, a viagem demorava muitas vezes por causa dos canteiros de obras, acho que é da Transcarioca ou Arena Deodoro, sei lá...Só sei que é um caos.”



Lembranças de um Rio Antigo


    Em homenagem aos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, o Instituto Moreira Salles realiza a exposição “ Rio: Primeiras Poses”. A curadoria é de Sergio Burgi. O rico acervo reúne obras de diversos fotógrafos com destaque para Marc Ferrez e Augusto Malta, grandes nomes da fotografia do final do século XX.

     Ferrez foi um dos pioneiros a desenvolver e explorar a fotografia de paisagem no Brasil. Na obra do artista é possível compreender melhor a remodelação do Rio com registro das remoções de moradias e do Morro do Castelo.

    Destaque para o desenvolvimento tanto da cidade quanto dos aparatos técnicos utilizados pelo fotógrafo. Estão presentes desde paisagens do final do século XIX às fotos esteroscópicas em cores.

    Possui ainda o projeto editorial definitivo da Avenida Central, além, de 3 exemplares do álbum da Avenida e os equipamentos utilizados por Marc tais como câmera estereoscópica e câmera Brandon, tripé, disparador entre os acessórios.

    O designer Marcos Paulo destacou o vídeo de 33 minutos exibido na exposição: “ Achei impressionante aquela projeção enorme com fotos ampliadas. A gente consegue viajar no tempo.”

    Augusto Malta foi fotógrafo da prefeitura durante a gestão Pereira Passos. Sendo direcionado para a documentação detalhada de todas as ruas que teriam seu traçado modificado.


    Em paralelo aos trabalhos como fotógrafo da prefeitura, realizou a documentação da Light, empresa fornecedora de energia elétrica. O resultado foi um vasto repertório dos bondes elétricos em atividade e da recente iluminação pública em suas fotos. O artista explora também as paisagens naturais e pontos turísticos como Pão de Açúcar, Corcovado e a Lapa.







Obras no Centro ‘atrasam‘ cidade do Rio de Janeiro


Revitalização da zona central provoca debates na sociedade
Rafael França

“O Rio de Janeiro continua lindo”. O trecho da música de Gilberto Gil feita em 1969 e eternizada com o passar das décadas pode não ter tanto efeito, hoje, na segunda década do século XXI. Se naquela época o Rio já havia passado pelas primeiras grandes obras na região central da cidade, atualmente a Cidade Maravilhosa ainda sofre com os transtornos das novas edificações.
No início do século XX, o então prefeito Pereira Passos promoveu uma grande reforma arquitetônica e urbanística na cidade. Demoliu prédios e casas e promoveu a criação de várias ruas e avenidas. A Avenida Central, atual Rio Branco, talvez seja o grande exemplo do “Bota Abaixo” da época. Além da criação dela, o prefeito também inaugurou a Avenida Beira Rio, removeu o Morro do Castelo, iniciou a urbanização de Copacabana, entre outras.
Com a escolha, em 2009, do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, o prefeito Eduardo Paes aproveitou o momento e a oportunidade para promover intensas reformas na cidade. O projeto Porto Maravilha talvez seja o grande exemplo disso. Nele, uma grande reforma abrangeria parte da região central da cidade. A demolição da Perimetral, a criação de novos museus e a instalação de um VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) fazem parte, por exemplo, do plano. Até as Olimpíadas do ano que vem, tudo estará pronto.

Trajeto do VLT, que será inaugurado no ano que vem
Divulgação: Prefeitura
Para a empregada doméstica Denise Ferreira, de 47 anos, é complicado chegar à Zona Sul todo dia. Residente da região central de Nova Iguaçu, Denise sofre com o transporte precário e a falta de infraestrutura do centro do Rio.
- É uma loucura chegar às sete e meia da manhã na Gávea. Tenho que levantar às quatro e sair de casa às cinco, senão, não dá. Pego o trem até a Central, depois pego um ônibus até a Zona Sul. As obras no Centro do Rio têm me atrapalhado muito, é complicado.
Não é só Denise que sofre com as obra. O filho dela Matheus Ferreira, de 17 anos, estudante de Direito da UERJ, também se desgasta com tantas mudanças na Cidade Maravilhosa.
- É difícil até pra ele, que só vai até a faculdade. Como é na região do Maracanã, teoricamente ele não deveria sofrer tanto. Infelizmente as condições do trem são piores, porque é um horário superlotado de gente.
Para o arquiteto aposentado Luis Müller, as obras do Porto Maravilha são de vital importância para o Rio de Janeiro.
- Essas obras que o prefeito está fazendo no centro já deviam ter sido feitas há um bom tempo. É compreensível que cause estresse e transtorno à população, mas elas tinham que sair do papel. O Rio de Janeiro estava atrasado na questão arquitetônica e urbanística há algumas décadas
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Futuro de esperança

A rotina descrita por Denise é comum a muitos moradores do Rio de Janeiro. Faltando menos de dois anos para os Jogos Olímpicos, a cidade segue em ebulição. A previsão do Governo do Estado é de que todos os trens da Supervia estejam trocados até as Olímpiadas. Enquanto isso, trabalhadores e comerciantes sofrem as consequências de diversas obras; do Porto Maravilha até a Linha 4 do Metrô.
Para a moradora de Nova Iguaçu, o futuro é de esperança.
- Olha, eu sou muito esperançosa com o futuro e com o que pode acontecer comigo. Eu acredito que em pouco tempo a gente vai ter um futuro melhor. Espero que, a partir do ano que vem, já nós possamos ter um transporte público melhor, trens melhores e mais conforto.
Para o arquiteto, a tendência é de que no futuro as coisas melhorem.
- Olha, a perspectiva é muito boa para o futuro. Com a conclusão do Porto Maravilha e das obras da Linha 4 do Metrô, que ligam Ipanema à Barra da Tijuca, nós devemos ter um Rio de Janeiro melhor. A grande questão é saber se nós aguentamos até lá, porque a situação atual é caótica.

Um Rio que você nunca viu

Em comemoração aos 450 anos do Rio de Janeiro, o Instituto Moreira Salles, localizado na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro, está hospedando duas exposições sobre o Rio Antigo e o Bota Abaixo: “Rio, primeiras poses e Um passeio pelo Rio”, de Joaquim Manuel de Macedo. O visitante tem, com isso, a chance de conhecer um pouco mais da história da Cidade Maravilhosa.
A exposição de Joaquim Macedo reúne cerca de 50 obras que retratam o Rio no século XIX. Ao entrar, o visitante tem a chance de ver a Ilha das Cobras, um panorama do Rio de Janeiro a partir do Morro do Castelo e a vista tomada do Passeio Público.
“Fazer de conta que vos achais agora comigo no aprazível terraço do passeio público do Rio de Janeiro". A citação apresentada está presente em meio as obras expostas.
Para o aposentado Valdir Garcia, de 65 anos, o conjunto apresentado foi muito bom e as obras são de inestimável valor: “Eu gostei bastante da exposição, as fotos foram bem tiradas com um ângulo bastante apropriado”, conta Garcia.
O bancário Pedro Nascimento, de 53 anos, também elogiou bastante a obra de Joaquim Macedo: “Eu gostei, achei ótimo... A qualidade é excelente, o lugar é interessante, o ambiente é ótimo. Tudo é muito bom”, diz Nascimento.
A segunda exposição, maior em relação a de Joaquim Macedo, traz fotografias inéditas, como a da Avenida Central, atual Rio Branco. Os fotógrafos Marc Ferrez e Augusto Malta retratam o Rio pelos seus olhos.

Além da Avenida Central - resultado do Bota Abaixo, no século passado -, a mostra também tem fotografias da inauguração da Avenida Beira Mar em direção à Glória, ao Catete, ao Flamengo e a Botafogo, as obras de melhoramento do porto do Rio de Janeiro, a Praça XV, entre outros. A remoção do morro do Castelo também é ilustrada por Augusto Malta. A exposição “Rio: primeiras poses” fica em cartaz até o dia 31 de dezembro de 2015. Já a exposição “Um passeio pelo Rio”, de Joaquim Manuel de Macedo, permanece disponível para visitação até o dia três de maio. A entrada é franca.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

OBRAS PARA AS OLIMPÍADAS DE 2016 GERAM PREOCUPAÇÃO



Reformas que tomam a cidade são alvo de críticas e legado divide opiniões

por Juliana Medeiros

     Com falta de planejamento, prazos esgotados e remoções, as obras da prefeitura de Eduardo Paes para as Olimpíadas de 2016 preocupam cariocas e especialistas. A pouco mais de um ano do evento, a cidade tem que lidar com os impactos das obras, que vão desde a poluição sonora até o trânsito caótico e as elevações dos preços dos imóveis, além de ter pela frente algumas construções que ainda não saíram do papel. O destino dessas construções e o legado das reformas que tomam o espaço urbano levantam discussões sobre o futuro da cidade do Rio de Janeiro.

     No ano de comemoração dos 450 anos da Cidade Maravilhosa, a primeira cidade latino-americana a sediar uma Olimpíada, o debate sobre as obras e o seu legado retoma as memórias do projeto do prefeito Pereira Passos, que prometeu transformar o Rio do início do século XX. Conhecido como “Bota-Abaixo”, o plano de fazer da cidade a “Paris dos trópicos” contou com ações como o desmonte do Morro do Castelo e a construção da Avenida Central, a atual Rio Branco. Para a arquiteta Lívia Rodrigues, 32 anos, ainda é cedo para tirar conclusões, mas a semelhança dos projetos de Paes e Passos é mais um motivo de preocupação.


Eduardo Paes visita as obras do Museu do Amanhã
Foto: UOL Entretenimento

     Segundo a arquiteta, o esforço de modernizar a cidade seguindo padrões estrangeiros sem que haja um planejamento é uma característica comum aos dois prefeitos, responsáveis por remoções que são alvos de críticas pela população.  “Apesar de separados por um século, são projetos que parecem não ser feitos para o carioca, que de fato vivencia a cidade, mas para formar uma imagem do Rio para o exterior, deixando de lado uma série de problemas de infraestrutura que acometem a cidade desde sua formação”, afirmou Lívia.

     Com gastos que já chegam a R$36,7 bilhões, um orçamento 43% maior que o da Copa do Mundo de 2014, as Olimpíadas de 2016 trouxeram ao Rio projetos de instalações que tiveram sua utilidade questionada após o término dos jogos, como o Complexo Esportivo de Deodoro. Para Lívia Rodrigues, a preocupação com a preservação e utilização de arenas e parques olímpicos após os jogos é fundamental, mas há também reformas positivas na área do transporte público, meio ambiente e cultura. “Como bons brasileiros, tememos que tudo acabe em pizza, mas acho que o destaque dado a esses setores é uma novidade e, no caso do transporte público, é mais do que urgente” disse a arquiteta.

Complexo Olímpico de Deodoro: uma das obras mais polêmicas
     O bota-abaixo atual, além de levantar questões importantes sobre o futuro da cidade, tem provocado incômodo no dia-a-dia dos cariocas. Com a interdição de ruas, barulho e aumento do trânsito, a população tem sofrido com os inconvenientes da preparação para os Jogos Olímpicos. Moradora de Ipanema, a empresária Manoela Ferreira conta que há barulho das obras do metrô até durante a madrugada e reclama da falta de supervisão: “Meu irmão já teve que escalar as grades para entrar no prédio, pois havia uma máquina na entrada e os operários disseram que ninguém sabia tirá-la dali”.

     Em fase de transformação, o Rio de Janeiro parece comemorar seu aniversário à espera dos resultados das obras que prometem não só um evento esportivo, como também uma nova cidade. “Estamos tendo uma grande oportunidade e é preciso cuidado para não perdermos a chance de transformar o Rio na cidade que merece ser”, concluiu a arquiteta Lívia Rodrigues.

O BOTA-ABAIXO DE PEREIRA PASSOS

     Batizado de Bota-Abaixo pelo cronista João Paulo Coelho Barreto, o João do Rio, o processo de reformas no início do século XX se caracterizou pela derrubada de casarios do Centro e pelo desmonte do Morro do Castelo, sob o comando do então prefeito, Pereira Passos (1836-1913). As alterações culminaram na abertura de diversas avenidas, sendo a Avenida Central, atual Rio Branco, o grande destaque.

     A reforma de Pereira Passos foi inspirada nas intervenções do prefeito Haussmann, que tinha a intenção de transformar Paris em metrópole moderna, através da abertura de avenidas e bulevares. As obras no Cais do Porto abrangiam a drenagem e a construção da muralha do cais. Além disso, foram realizadas as obras do aterro de 175.000 metros quadrados de área conquistada ao mar, a colocação de trilhos da EFCB – Estrada de Ferro Central do Brasil e Leopoldina e das linhas do cais do Porto. 

A influência europeia na Avenida Central, autal Rio Branco
Foto: Augusto Malta, 1906
     Em 1904, uma série de insatisfações e inquéritos jurídicos, principalmente por comerciantes e moradores do Centro, se deu início em razão das ações da prefeitura. Pereira Passos recebia pesadas críticas da imprensa e, além disso, o Ministro Oswaldo Cruz pregava a vacinação obrigatória para dar fim à febre amarela e varíola. A situação acabou por provocar a chamada Revolta da Vacina, em 1910.

AO SE PREPARAR PARA AS OLIMPÍADAS, RIO VOLTA NO TEMPO



Moradores estão descontentes com as reformas

  João Marcos Pinto

Os mais jovens podem não saber, mas não é a primeira vez que o Rio de Janeiro passa por um período de grandes transformações na sua infraestrutura urbana. Na década de 20, aconteceu o primeiro “bota-abaixo” carioca. A cidade foi tomada por grandes obras que mudaram completamente o dia a dia do povo. Abertura das Avenidas Rio Branco, Francisco Bicalho e Atlântica, e novo Cais e Porto do Rio de Janeiro foram grandes transformações para a época e apesar de trazerem melhorias para o cidadão carioca, nem todos viram com bons olhos. Isso se deveu ao fato de que quase nada no Centro do Rio ficou de pé, o que desagradava quem tinha mais apreço pela história, tendo como ponto alto a derrubada do Morro do Castelo.

Av. Ataulfo de Paiva fechada pela obra do metro.
Agência Estadão

Hoje em dia, o descontentamento com as obras também é presente, mas por motivos diferentes. Altíssimo custo na construção de estádios, arenas esportivas sucateadas e atrasos constantes na entrega de soluções para o transporte público são alguns dos principais motivos de revolta dos cariocas. Segundo o coordenador do projeto “Metrô que o Rio precisa”, Atílio Flegner, o atraso não é pequeno e muito menos um problema de agora. Em 1968 foi feito o estudo de viabilidade técnica e econômica do metrô e nele estava escrito que o metrô, junto com os trens, deveriam atender a uma grande parcela da população. Sendo assim, o metrô deveria operar em alta capacidade de transporte, mas até hoje esse planejamento ainda não foi executado. Estamos em 2015 e em 1968 já estava previsto que até 1990 o metrô deveria chegar em Niterói. Estamos com quase 30 anos de atraso em relação ao planejamento de transporte”, afirma Atílio.


Problemas não acabam

Além dos problemas com gasto excessivo de dinheiro público e má organização no desenvolvimento das obras, o povo do Rio ainda sofre as consequências periféricas do grande canteiro de obras que virou a cidade. O trânsito do Rio de Janeiro já é maior que o de São Paulo, gastando mais tempo no trajeto casa-trabalho, trabalho-casa do que os paulistas. Outra consequência negativa é o aumento da violência. As muitas obras, principalmente do metrô, deixaram algumas áreas desertas e muito perigosas. É o caso de algumas ruas no Leblon, como conta o morador do bairro, Lucas Okamura. “As ruas estão cada vez mais desertas por aqui, pois esses tapumes  de obras encobrem totalmente a visão da rua. Virou um lugar perfeito para os assaltos. Tem um trecho aqui perto de casa, na Av. Ataulfo de Paiva, entre a Rua Afrânio de Melo Franco e o Jardim de Alah, que é assalto toda hora. Eu mesmo já fui assaltado duas vezes nesse trecho.”

A melhoria do metrô é essencial

            Qualquer projeto de transporte público minimamente eficiente nas grandes cidades passa por um conceito muito bem desenvolvido do seu metrô. O que não está acontecendo no Rio. A prefeitura desenvolveu o BRT como sendo uma grande solução para o trânsito na cidade, quando na verdade deveria ser apenas uma ajuda no sistema principal, o metrô. Atílio Flegner, coordenador do projeto “ Metrô que o Rio precisa” explica a diferença. “O BRT aqui no Rio foi construído com uma capacidade física e operacional de cerca de 10 mil passageiros/hora/sentido o que não é nada comparado ao metrô,  que pode chegar a 90 mil passageiros/ hora/ sentido”
            O projeto de Atílio e seus companheiros é bastante importante para a fiscalização das obras do metrô. O conceito inicial da prefeitura era suprimir a construção da estação Gávea, que era essencial para integrar as linhas 1 e 4. Sabendo disso, o “Metrô que o Rio precisa” entrou em atuação e com muito esforço conseguiu uma ação no MP para que as obras se iniciassem. Apesar disso, a construção dessa estação está parada. “Já são três meses de inatividade nas obras. Estamos estudando maneiras de atuar e fazer com que ela volte ao normal e seja entregue dentro do prazo. Ou melhor, entregue dentro do prazo já atrasado.”

Sugiro um infográfico que mostre a capacidade passageiros/hora/sentido de vários meios de transportes diferentes para a comparação dos mais efetivos. Comparar os BRTs transcarioca e transoeste, barcas, supervia, as diferentes linhas do metrô e inclusive comprar com meios de transportes de outras grandes cidades.
A melhor maneira seria usar barras de tamanhos diferentes de acordo com a capacidade de cada meio de transporte.

           

            

Indagações atuais e históricas sobre as obras do Rio



A política de Paes e Pereira Passos para a construção do Rio


Gabriella Real 


  A questão urbana volta a ser um tema importante nos 450 anos do Rio de Janeiro. A cidade vem sofrendo mudanças estruturais, vias estão sendo desviadas, pessoas sendo relocadas, casas sendo demolidas e obras para todos os lados. Um verdadeiro caos urbano. Mas o anseio de uma cidade melhor enche de esperança o carioca. Mas esse cenário não é novidade na Capital Fluminense.



Prefeito Eduardo Paes ao lado de um ator vestido de Pereira Passos dá início a mais uma reforma
Marcos Tristão / O Globo; 2012



  No início do século XX, o Rio de Janeiro tinha fama internacional como “Porto Sujo”.  Era preciso que a cidade assumisse uma nova feição para se tornar a Cidade Maravilhosa. O prefeito e engenheiro Francisco Pereira Passos foi incumbido desta função, criou o primeiro projeto urbanístico em 1904. A reforma se sustentou no tripé do saneamento, das aberturas de vias e no embelezamento. A arquiteta da AL2 Arquitetura Luciana Ernesto lembrou que Passos para redesenhar o Rio passou uma temporada em Paris, onde viu as reformas que o prefeito Georges Haussmann fez em Paris. Ela disse que ele queria ser o Haussmann tropical, mudando para sempre a cara do Rio.


  Passos implementou a politica do “bota-abaixo” que tinha como objetivo acabar com os focos de doença e modernizar da cidade. Passos derrubou os cortiços, proibiu vendedores ambulantes. As pessoas que viviam nos aglomerados habitacionais tiveram que ir para os subúrbios ou para morros. Nasciam às primeiras favelas.  Além disso, demoliu igrejas, casarões, abriu diversas ruas permitindo uma melhor iluminação e ventilação. A arquiteta relembrou que a Av. Rio Branco foi inaugurada em 15 de novembro de 1905, sendo a maior intervenção urbanística do Rio.

  O atual prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, se mostrou fã do Pereira Passos na inauguração da primeira fase das obras da Zona Portuária, um ator teve a tarefa de representar o ex-prefeito. É evidente que Paes pretende entrar na história da cidade, assim como fez Pereira Passos. “Ele é o novo Pereira Passos”, disse Luciana.

  No primeiro mandato de Eduardo Paes, ele instaurou a política de “Choque de ordem”. Similar ao projeto do “bota-abaixo”, Paes teve como objetivo retirar moradores de rua, ambulantes, crianças abandonadas e pessoas sem documento. Ele também criou projetos de revitalização da cidade como, por exemplo, o Porto Maravilha, que estava abandonado.

  A reeleição do atual prefeito em 2012 foi marcada também pela escolha do Rio de Janeiro como sede para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Isso viabilizou do ponto de vista empresarial o projeto de cidade empreendedora, que tem como objetivo atrair investimentos. O slogan de Paes nas eleições foi o seguinte “O Rio voltou a sorrir”. Remete à ideia de que agora o carioca pode ter orgulho de sua cidade que se lança ao cenário internacional como fez na época de Passos. Há um paralelo entre os prefeitos, ambos visam às melhorias para tornar a cidade atrativa aos investimentos estrangeiros.

  Outro ponto que vemos na política de Paes é que a revitalização da zona portuária teve como consequência remoção de moradores, demolições de prédios históricos. O entorno do estádio do Maracanã também foi reconfigurado. A comunidade da Vila do Autódromo, em Jacarepaguá, também foi removida para a construção da Vila Olímpica.


Legado das obras


  O Rio de Janeiro possui vários problemas como em qualquer cidade que cresce sem planejamento. A falta de saneamento básico, as condições precárias de moradias, educação, saúde e sistema de transporte público são uma realidade no momento em que transformações urbanas estão sendo feitas.

  O prefeito Eduardo Paes está fazendo uma revolução na cidade como lembra Luciana.  Mesmo no meio do caos o carioca terá grandes benefícios. As obras do metrô, do BRT e do VLT em longo prazo vão facilitar a ligação de várias regiões do Rio. “A criação dos centros esportivos para as Olimpíadas ajudaram milhares de crianças após os jogos como locais de atividades”, afirmou a arquiteta.

  O estudante da Faculdade de Design de Produto da PUC-Rio Mairê Ramazzina, de 21 anos, contou que está cada vez mais difícil morar na Ilha das Garças, na Barra da Tijuca. “As obras do metrô começaram a se intensificar e tiveram que se apropriar do terreno onde os moradores das 11 ilhas da barra estacionavam os carros e pegavam os barcos. Ficou perigoso entrar nas ilhas”, contou Mairê. Ele acredita que, mesmo com todo transtorno da cidade, as obras são para um bem maior.

  Mesmo com tantas reformas para melhorar a situação da cidade o caos, a falta de planejamento, a precariedade do transporte público e o trânsito estão afetando a vida de quem mora no Rio. Tanto o estudante Mairê Ramazzina quanto a arquiteta Luciana Ernesto acreditam que se tudo der certo nas obras, a cidade vai ficar bem melhor.



Faces Brasil no começo do século XX


  Nos 450 anos do Rio de Janeiro, 450 fotos que retratam a Belle Époque carioca foram selecionas para a exposição no Instituto Moreira Salles, na Gávea, Rio de Janeiro. A exposição é aberta ao público até o dia 31 de dezembro. Em meio às transformações, podemos identificar alguns pedaços da cidade que permaneceram intactos até os dias de hoje.

  Marc Ferrez e Augusto Malta são destaques na exposição. Com fotos belíssimas, eles retratam as transformações, o cotidiano e as paisagens da Cidade Maravilhosa. As fotos de ambos os artistas podem ser ampliadas e um mapa mostra onde foram tiradas, tendo como base a estrutura do Rio atual.

  Neste relato histórico o Brasil ainda com zê é caracterizado por sua natureza, vistas deslumbrantes e construções belíssimas. Uma das fotos que mais impressiona é a derrubada do Morro do Castelo. Augusto retrata o momento em que jatos de água atingem o morro e começam a destruição de casas, a terra desaba. Um fato engraçado é que desde 1900 os homens se vestem de mulheres no Carnaval.

  Na exposição, uma das alas que chama atenção é a da Av. Central. A planta e os desenhos dos prédios são magníficos e o melhor é ver o recorte das fotos para apenas mostrar aquele ponto da cidade. Através das fotos, passeamos em uma época de grandes transformações econômicas e sociais. Hoje podemos visitar esses lugares e ver que algumas modificações ainda estão no mesmo lugar.


Obras mudam rotina do carioca


Novo Bota-Abaixo complica a vida de 
quem precisar andar pela cidade

Orla carioca no início do século XX e hoje
 Foto: Marcello Cavalcanti
Diego Andrade 

     Mais de 100 anos após o primeiro Bota-Abaixo, o Rio de Janeiro vive novamente outro período de obras e mudanças estruturais. Quem caminha pelas ruas da cidade, percebe as alterações na imagem da cidade. Ruas em obras, placas e prédios levantados são constantemente visíveis. Assim como uma obra em uma casa, essas modificações trazem transtornos ao morador. Mas não é só nas obras que os dois momentos têm semelhanças.
    
     Entre 1902 e 1906, a cidade foi revitalizada à moda francesa. O prefeito da época, Pereira Passos, mudou toda a estrutura da cidade, principalmente da região central, com a construção da Avenida Rio Branco, da Rua da Carioca e a derrubada do antigo Morro do Castelo. As obras tinham três aspectos principais: a estética, a sanitária e a viária. Para impedir que doenças como a malária se expandissem na cidade, Passos utilizou da ideia do mesmo arquiteto que projetou as ruas de Paris e as tornou mais largas. A paisagista e urbanista da PUC-Rio Cecilia Herzog classifica as principais mudanças da cidade durante o período:

- A cidade precisava ser arejada por conta da propagação das doenças que iam de encontro ao contrário com o que a modernidade da época implantava. Também teve o motivo estético que era, principalmente, embelezar a cidade e retirar dali os crescentes cortiços que deixavam feia a imagem do Rio de Janeiro diante dos visitantes. Hoje estamos vivendo o mesmo processo- destacou Cecilia.

     No atual Bota-Abaixo, a cidade também procura se embelezar para agradar os estrangeiros. Entretanto, o motivo é outro: os Jogos Olímpicos Rio-2016. Por conta disso, quem anda – ou tenta andar – pelas ruas da cidade encontra placas com a mensagem “desculpe o transtorno”. O prefeito Eduardo Paes em seu programa político aparece constantemente pedindo desculpas pelas dificuldades vividas pelos cidadãos durante este período de obras. Assim como Pereira Passos, um dos lugares que mais vem sofrendo com as obras é o Centro do Rio, em especial a Zona Portuária. Durante o fechamento e a derrubada do viaduto da Perimetral, o trânsito na região enfrentou sérios problemas para quem passava pelo local. A via Binário, rua criada para dar mais mobilidade a quem trafegava na região, sofria com constantes engarrafamentos.

O futuro

     Outra parte da cidade que vem sofrendo com problemas é a zona oeste. Barra da Tijuca e Deodoro vão receber boa parte das modalidades esportivas. As obras do Autódromo e do Parque Aquático, onde ocorrerão às provas de canoagem e canoagem slalom, criam dificuldades para quem quer ir ao lugar. Na Barra da Tijuca, as obras de mobilidade urbana estão mudando a rotina de quem vive ou trabalha lá. A estudante de jornalismo Nathalia Alves, moradora de Jacarepaguá, relatou o que mudou na sua vida após a implantação das obras:

- Antigamente, antes das obras, eu saía de casa às 7h30 por conta do engarrafamento que a Barra normalmente têm. Hoje, preciso acordar às 5h30, para sair às 6h30, para tentar chegar no meu trabalho a tempo, que é próximo onde estavam acontecendo as obras do BRT e que ainda ocorrem as da linha 4 do metrô. Ou seja, perco, todo dia, uma hora de sono que poderia ter sem o engarrafamento.

     A expectativa da Prefeitura é que as obras na região melhorem o fluxo de movimentação na região. Hoje, o BRT liga de Madureira a Barra e da Barra ao Galeão, o que já o faz ser uma das principais vias de acesso da cidade. O metrô vai ser ligado da Estação General Osório, em Ipanema, até a Barra, onde será a via de acesso mais rápida de quem vai da Zona Sul em direção ao local.


Meio ambiente em xeque
    
 Se as obras na cidade do Rio pretendem trazer mais mobilidade urbana, um ponto está sendo questionado: a obra do campo de golfe olímpico. O local vem sofrendo com críticas e protestos de grupos ambientais que acusam a prefeitura de usar uma zona de proteção ambiental para a construção do campo. Localizado na Barra da Tijuca, área está instalada dentro de uma zona ambiental, que teve sua divisão modificada para abrigar o projeto e um empreendimento imobiliário.

      A construção do campo de golfe foi questionada pela paisagista e urbanista da PUC-Rio Cecília Herzog, que afirmou que as consequências da criação do campo podem trazer muitos riscos ao meio ambiente:

- A construção do campo é uma agressão à natureza. Não se pode pegar uma região preservada e simplesmente destruir para construir um point de lazer para turista ver. É um absurdo. O que será destruído com o campo poderá ser recuperado? Acho que não e a prefeitura parece não estar se importando com isso – denuncia a paisagista
     O prefeito Eduardo Paes declarou recentemente “odiar” ter que fazer a obra -que já defendeu no passado - e disse que “não teria feito este campo de golfe nunca” se dependesse dele. Paes afirmou que só levou o projeto adiante porque “todos os pareceres” mostrava que os demais campos existentes no Rio – o Gávea Golf e o Itanhangá – não serviam para as Olimpíadas.

      O campo de golfe olímpico é um dos pontos mais sensíveis na organização dos Jogos de 2016: além de ser considerada uma das três obras com cronograma mais apertado. O presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, declarou em visita ao Rio numa conversa com universitário que “o prefeito pressionou muito pela construção desse campo” e de que tem certeza de que ele pensou muito antes da decisão de construí-lo”