Intervenções simultâneas causam impacto no cotidiano
dos cariocas
Flávia Nunes
Dois séculos
diferentes, mas que têm muito em comum. No início do século XX, a então Capital
Federal, o Rio de Janeiro, já apresentava alguns dos problemas conhecidos pelos
atuais habitantes da cidade. Alguns deles, por exemplo, são o crescimento
desordenado, a carência de transporte, a falta no abastecimento de água, a
precária rede de esgotos, e a más condições nos programas de saúde e segurança
eram uma realidade incomoda para quem vivia na cidade.
O período vivido na
época foi de uma intensa reforma urbana, realizada na gestão do prefeito
Pereira Passos. Esse momento ficou
conhecido pela população e nos livros de história como o Bota-abaixo, uma das
maiores e mais famosas reformas que a cidade já havia sofrido. Entretanto,
hoje, no século XXI, quem assume o papel realizador de mudanças é o prefeito
Eduardo Paes.
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| O Bota-Abaixo de Pereira Passos promoveu a nova imagem da Capital Federal Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro |
Apesar da diferença
cronológica, é possível comparar os dois períodos pela intensa tentativa de
modernização da cidade. De acordo com o urbanista e professor adjunto do
Departamento de Análise e Representação da Forma da Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU-UFRJ) Rodrigo Cury
Paraizo, nos dois períodos, há essa tentativa de apresentar uma imagem moderna
e capaz de atrair investimentos internacionais para o país ou para a própria
cidade.
— No início do século
XX, a cidade era a Capital Federal, representando a imagem do país. Trata-se de
manter e renovar seu prestígio como polo cultural e simbólico para atrair
investimentos econômicos para a própria cidade e seu estado — afirma o
professor Rodrigo Cury.
Segundo o urbanista e
professor do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da UFRJ, apesar de hoje a
quantidade de obras serem maiores do que no período anterior, há um senso maior
de justiça no modo em que são realizadas.
— Na atualidade temos
um número maior de intervenções simultâneas, e em áreas muito distintas da
cidade. Graças às experiências anteriores, temos uma percepção mais aguda
também das injustiças trazidas pelas intervenções, bem como mecanismos mais
eficientes e acessíveis de denúncia e questionamento das ações do poder
público. Continuam a ocorrer injustiças; mas muitas são percebidas, denunciadas
e, em alguns casos, até mesmo mitigadas ou corrigidas.
A Cidade Maravilhosa atualmente
concentra a atenção de toda a comunidade internacional devido à proximidade das
Olimpíadas de 2016. Não somente, ela também foi um dos palcos na Copa do Mundo
de 2014. Com grandes eventos, a necessidade de obras de melhorias é necessária,
mas causa transtornos para moradores.
Se a reforma urbana do
antigo prefeito transformou a região do centro, hoje, os cariocas vivem em praticamente
um canteiro de obras, já que todas as zonas da cidade recebem algum tipo de
intervenção. Apesar dos benefícios em longo prazo, os impactos dessas obras
simultâneas são sentidos pelas pessoas que necessitam se deslocar diariamente.
A expansão e
desenvolvimento de diferentes serviços, como as obras na Linha 4 do metrô
(Barra/General Osório), no Elevado do Joá e a duplicação de vias na Zona Oeste,
já afeta o dia a dia de quem precisa passar pela região. Morador da Barra da
Tijuca, o estudante de Comunicação Social da PUC-Rio Igor Novello enfrenta
diariamente os extensos engarrafamentos na cidade, uma das consequências das
obras em seu trajeto.
— Essas intervenções
vêm atrapalhando bastante o meu dia a dia. Com as obras do Metrô, por exemplo,
a Avenida das Américas está com todos os canteiros tomados por grades,
caminhões e homens trabalhando. Pelo menos uma ou duas pistas de cada rua estão
tomadas e, por isso, muitos desvios tem que ser feitos, fazendo com que o
tráfego de carros fique confuso e o trânsito mais lento.
Esperança no futuro
O legado para os
cariocas no futuro, além da modernização de arenas esportivas, será
principalmente refletida na questão do transporte público. O raciocínio de que,
se antes, as coisas bem ou mal funcionavam, e, agora, com a intervenção, que
agora estão funcionando mal é comum. Porém, os moradores, e também turistas,
devem lembrar que irão poder usufruir dessas melhorias no futuro. De acordo com
o professor e urbanista Rodrigo Cury Paraizo, é preciso haver a mudança de
hábitos dos cidadãos.
— É difícil perceber
que esses transtornos podem vir a resultar em uma situação melhor no longo
prazo, ainda mais se envolver mudanças de hábitos, como, por exemplo, adotar o
transporte coletivo em lugar do carro. As obras, em si, são positivas e a
cidade deve melhorar com elas.
No entanto, o urbanista destaca que uma metrópole como o Rio de Janeiro
deve estar sempre em transformação, e, portanto, é natural ter obras em
andamento. Ele afirma que pelo fato de os administradores públicos
negligenciarem tanto a realização dessas obras nas últimas décadas, a
coincidência delas no mesmo período que traz tantos transtornos. Além disso, a
pressa prejudica também os próprios arquitetos do país.
— O que vejo como
problemático é que justamente o impulso dado pelos megaeventos porque acaba por
sufocar debates e questionamentos que seriam importantes para evitar, ou ao
menos mitigar, injustiças. Penso que poderíamos também ter tido mais concursos
de arquitetura para os projetos, e que, ao abrir mão deles, perdemos muitas
oportunidades de aprendizado e discussão dos profissionais brasileiros.
Instituto Moreira Salles e o Bota-Abaixo
O momento de
transformações urbanas que a cidade carioca viveu nas primeiras décadas do
século XX é uma das questões abordadas na exposição ‘Rio: primeiras poses -
Visões da cidade a partir da chegada da fotografia (1840-1930)’, evento que
acontece no Instituto Moreira Salles. A exposição traz imagens e fotografias do
período conhecido como o Bota-abaixo, da gestão do prefeito Pereira Passos.
Os registros que foram
feitos das remoções praticadas naquele período implicou em custos sociais para
a população, como o surgimento das favelas com a realocação de pessoas da área
central. Segundo o urbanistaRodrigo Cury Paraizo, o período das reformas deveria facilitar a ligação comercial com o restante da
cidade.
— Há diversas situações de remoção
juridicamente questionáveis em curso, por conta das obras de infraestrutura e
de renovação urbana: no Morro da Providência, na Vila Autódromo. As pessoas
afetadas não tiveram tempo de recorrer adequadamente à Justiça.
A partir dos registros feitos por
fotógrafos como Marc Ferrez, responsável por importantes documentos visuais no
país e único a fazer fotos panorâmicas, e Augusto Malta, primeiro fotógrafo
oficial da prefeitura do Rio, durante as reformas urbanísticas de Pereira
Passos, é possível conhecer uma cidade que não existe mais. O urbanista Rodrigo
Cury ainda explica o motivo pelo qual as pessoas não desejavam se mudar.
— As moradias disponíveis para os
removidos são distantes do Centro (mais uma vez, a questão da mobilidade
urbana) e das suas próprias redes informais de solidariedade, sem falar na
baixa qualidade urbanística desses conjuntos.
A exposição fica em exibição até o dia 31 de
dezembro, de terça a domingo, 11h às 20h. A entrada é gratuita.

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