População do Rio de Janeiro sofre com medidas que
lembram o ‘Bota-Abaixo’
Matheus Dantas
No ano em que completa
450 anos, o Rio de Janeiro enfrenta problemas sociais que se arrastam há
décadas, e, em alguns aspectos, as medidas dos mais recentes governos parecem
repetir o que foi feito no início do Século XX, no mandato de Francisco Pereira
Passos. Visando a modernização da ex-capital do Brasil, foi posto em prática o “Bota-Abaixo”,
momento em que, para alcançar as melhorias urbanísticas e sanitárias, o Rio de
Janeiro passou por profundas transformações. As reformas tiveram um alto custo social,
como a exclusão dos mais pobres do centro e a formação das primeiras favelas.
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| Vila Autódromo, no Rio de Janeiro, deu lugar à Vila Olímpica Júlio César Guimarães/UOL |
Com a confirmação da
sede da Copa do Mundo de 2010 e as Olimpíadas de 2016, o Rio de Janeiro, voltou
a se tornar um grande canteiro de obras, com grandes projetos de revitalização
de áreas abandonadas pelo Estado, mas de grande valor imobiliário. Seja na
retirada dos cortiços para a construção da Avenida Central, atual Avenida Rio
Branco, em 1905, ou na posse da Vila Autódromo, nos últimos anos, a semelhança
se encontra na exclusão da população de baixa renda, obrigada a deixar os
locais.
Os legados econômicos e
sociais que os grandes eventos trouxeram para a população e para o país como um
todo foram a justificativa dos governantes para as remoções forçadas e
investimentos feitos. Mas para o engenheiro civil e arquiteto Gustavo França
Liberali, o Rio foi mais prejudicado do que beneficiado até agora.
- As obras deixaram
como legado uma cidade mais dividida e privatizada do que antes. Muitas
remoções aconteceram de maneira polêmica e não vejo os projetos vindo a criar
uma cidade mais integrada – afirmou.
A escolha da Barra da
Tijuca como o local que receberá a maior quantidade de provas olímpicas é um
dos principais problemas para Gustavo Liberali. O engenheiro afirma que obras
como a duplicação do Elevado do Joá e a chegada do metrô no bairro não terão um
impacto tão grande para maior parte da população.
- Caso o projeto que
colocava a Ilha do Fundão como coração das Olímpiadas no Rio tivesse sido
tocado, acredito que os impactos positivos em mobilidade urbana seriam muito
maiores, atingindo a Zona Norte e a Baixada Fluminense – avaliou Gustavo.
Um dos modelos
implantados para melhorar a mobilidade urbana do Rio de Janeiro foi os
corredores expressos de ônibus. Apesar dos problemas de lotação nos BRTs
Transoeste e Transcarioca, que ligam o bairro de Campo Grande à Barra da Tijuca
e ao aeroporto Galeão, o sistema agradou a doméstica Joana Fátima Gonçalves, de
52 anos.
Moradora de Santa Cruz,
Fátima trabalha na Barra da Tijuca há sete anos. Ela afirma que o BRT melhorou
sua ida e volta para o trabalho. Ao pegar o ônibus expresso na estação Gastão
Rangel e ir até a estação Américas Park, seu tempo de viagem por dia diminuiu
em cerca de 1h30 por dia.
- Antes de o BRT chegar
onde eu moro, em 2012, eu demorava duas horas para ir e voltar do trabalho. Até
porque eu tinha que pegar dois ônibus. Agora eu pego só o BRT expresso, e faço
a viagem em 50 minutos – disse Fátima, que também lembrou o sistema ainda sofre
com a superlotação.
A
história se repete, os prejudicados também
Para
o professor de História do Brasil, Igor Guarda Rabello, as motivações que
levaram as atuais mudanças no cenário do Rio de Janeiro são as mesmas que promoveram
o “Bota-Abaixo”, no início do século XX. A retirada da população mais pobre das
áreas nobre tem seus motivos.
-
A questão da valorização imobiliária também é importante para o despejo forçado
das pessoas da região portuária para a construção do Porto Maravilha remete à
extinção dos cortiços e exclusão da população mais pobre do Centro do Rio de
Janeiro nos anos de 1900 – afirmou.
Ainda
segundo o professor, a população do Rio de Janeiro também se comportou de
maneira parecida nos dois momentos. No mandato do prefeito Francisco Pereira
Passos, a população reagiu com o movimento que ficou conhecido como a Revolta
da Vacina, que deixou mais de 30 pessoas mortas. Para Igor Rabello, as
manifestações de julho de 2013 também foram uma resposta às praticas do
Governo.

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