terça-feira, 2 de junho de 2015

Para solucionar problemas antigos, Governo carioca repete o passado



            População do Rio de Janeiro sofre com medidas que lembram o ‘Bota-Abaixo’

Matheus Dantas

     No ano em que completa 450 anos, o Rio de Janeiro enfrenta problemas sociais que se arrastam há décadas, e, em alguns aspectos, as medidas dos mais recentes governos parecem repetir o que foi feito no início do Século XX, no mandato de Francisco Pereira Passos. Visando a modernização da ex-capital do Brasil, foi posto em prática o “Bota-Abaixo”, momento em que, para alcançar as melhorias urbanísticas e sanitárias, o Rio de Janeiro passou por profundas transformações. As reformas tiveram um alto custo social, como a exclusão dos mais pobres do centro e a formação das primeiras favelas.


Vila Autódromo, no Rio de Janeiro, deu lugar à Vila Olímpica
Júlio César Guimarães/UOL


     Com a confirmação da sede da Copa do Mundo de 2010 e as Olimpíadas de 2016, o Rio de Janeiro, voltou a se tornar um grande canteiro de obras, com grandes projetos de revitalização de áreas abandonadas pelo Estado, mas de grande valor imobiliário. Seja na retirada dos cortiços para a construção da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, em 1905, ou na posse da Vila Autódromo, nos últimos anos, a semelhança se encontra na exclusão da população de baixa renda, obrigada a deixar os locais.

     Os legados econômicos e sociais que os grandes eventos trouxeram para a população e para o país como um todo foram a justificativa dos governantes para as remoções forçadas e investimentos feitos. Mas para o engenheiro civil e arquiteto Gustavo França Liberali, o Rio foi mais prejudicado do que beneficiado até agora.

     - As obras deixaram como legado uma cidade mais dividida e privatizada do que antes. Muitas remoções aconteceram de maneira polêmica e não vejo os projetos vindo a criar uma cidade mais integrada – afirmou.

     A escolha da Barra da Tijuca como o local que receberá a maior quantidade de provas olímpicas é um dos principais problemas para Gustavo Liberali. O engenheiro afirma que obras como a duplicação do Elevado do Joá e a chegada do metrô no bairro não terão um impacto tão grande para maior parte da população.

     - Caso o projeto que colocava a Ilha do Fundão como coração das Olímpiadas no Rio tivesse sido tocado, acredito que os impactos positivos em mobilidade urbana seriam muito maiores, atingindo a Zona Norte e a Baixada Fluminense – avaliou Gustavo.

     Um dos modelos implantados para melhorar a mobilidade urbana do Rio de Janeiro foi os corredores expressos de ônibus. Apesar dos problemas de lotação nos BRTs Transoeste e Transcarioca, que ligam o bairro de Campo Grande à Barra da Tijuca e ao aeroporto Galeão, o sistema agradou a doméstica Joana Fátima Gonçalves, de 52 anos.

    Moradora de Santa Cruz, Fátima trabalha na Barra da Tijuca há sete anos. Ela afirma que o BRT melhorou sua ida e volta para o trabalho. Ao pegar o ônibus expresso na estação Gastão Rangel e ir até a estação Américas Park, seu tempo de viagem por dia diminuiu em cerca de 1h30 por dia.
    
    - Antes de o BRT chegar onde eu moro, em 2012, eu demorava duas horas para ir e voltar do trabalho. Até porque eu tinha que pegar dois ônibus. Agora eu pego só o BRT expresso, e faço a viagem em 50 minutos – disse Fátima, que também lembrou o sistema ainda sofre com a superlotação.

A história se repete, os prejudicados também

     Para o professor de História do Brasil, Igor Guarda Rabello, as motivações que levaram as atuais mudanças no cenário do Rio de Janeiro são as mesmas que promoveram o “Bota-Abaixo”, no início do século XX. A retirada da população mais pobre das áreas nobre tem seus motivos.

    - A questão da valorização imobiliária também é importante para o despejo forçado das pessoas da região portuária para a construção do Porto Maravilha remete à extinção dos cortiços e exclusão da população mais pobre do Centro do Rio de Janeiro nos anos de 1900 – afirmou.

     Ainda segundo o professor, a população do Rio de Janeiro também se comportou de maneira parecida nos dois momentos. No mandato do prefeito Francisco Pereira Passos, a população reagiu com o movimento que ficou conhecido como a Revolta da Vacina, que deixou mais de 30 pessoas mortas. Para Igor Rabello, as manifestações de julho de 2013 também foram uma resposta às praticas do Governo.



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