Revitalização da zona central provoca debates na
sociedade
Rafael França
“O Rio de Janeiro continua lindo”. O trecho
da música de Gilberto Gil feita em 1969 e eternizada com o passar das décadas
pode não ter tanto efeito, hoje, na segunda década do século XXI. Se naquela
época o Rio já havia passado pelas primeiras grandes obras na região central da
cidade, atualmente a Cidade Maravilhosa ainda sofre com os transtornos das
novas edificações.
No início do século XX, o então prefeito
Pereira Passos promoveu uma grande reforma arquitetônica e urbanística na
cidade. Demoliu prédios e casas e promoveu a criação de várias ruas e avenidas.
A Avenida Central, atual Rio Branco, talvez seja o grande exemplo do “Bota
Abaixo” da época. Além da criação dela, o prefeito também inaugurou a Avenida
Beira Rio, removeu o Morro do Castelo, iniciou a urbanização de Copacabana,
entre outras.
Com a escolha, em 2009, do Rio de Janeiro
como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, o prefeito Eduardo Paes aproveitou o
momento e a oportunidade para promover intensas reformas na cidade. O projeto
Porto Maravilha talvez seja o grande exemplo disso. Nele, uma grande reforma
abrangeria parte da região central da cidade. A demolição da Perimetral, a
criação de novos museus e a instalação de um VLT (Veículo Leve sobre Trilhos)
fazem parte, por exemplo, do plano. Até as Olimpíadas do ano que vem, tudo
estará pronto.
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| Trajeto do VLT, que será inaugurado no ano que vem Divulgação: Prefeitura |
Para a empregada doméstica Denise Ferreira,
de 47 anos, é complicado chegar à Zona Sul todo dia. Residente da região
central de Nova Iguaçu, Denise sofre com o transporte precário e a falta de
infraestrutura do centro do Rio.
- É uma loucura chegar às sete e meia da
manhã na Gávea. Tenho que levantar às quatro e sair de casa às cinco, senão,
não dá. Pego o trem até a Central, depois pego um ônibus até a Zona Sul. As
obras no Centro do Rio têm me atrapalhado muito, é complicado.
Não é só Denise que sofre com as obra. O
filho dela Matheus Ferreira, de 17 anos, estudante de Direito da UERJ, também se
desgasta com tantas mudanças na Cidade Maravilhosa.
- É difícil até pra ele, que só vai até a
faculdade. Como é na região do Maracanã, teoricamente ele não deveria sofrer
tanto. Infelizmente as condições do trem são piores, porque é um horário superlotado
de gente.
Para o arquiteto aposentado Luis Müller, as
obras do Porto Maravilha são de vital importância para o Rio de Janeiro.
- Essas obras que o prefeito está fazendo no
centro já deviam ter sido feitas há um bom tempo. É compreensível que cause
estresse e transtorno à população, mas elas tinham que sair do papel. O Rio de
Janeiro estava atrasado na questão arquitetônica e urbanística há algumas
décadas
.
Futuro de esperança
A rotina descrita por Denise é comum a muitos
moradores do Rio de Janeiro. Faltando menos de dois anos para os Jogos
Olímpicos, a cidade segue em ebulição. A previsão do Governo do Estado é de que
todos os trens da Supervia estejam trocados até as Olímpiadas. Enquanto isso,
trabalhadores e comerciantes sofrem as consequências de diversas obras; do
Porto Maravilha até a Linha 4 do Metrô.
Para a moradora de Nova Iguaçu, o futuro é de
esperança.
- Olha, eu sou muito esperançosa com o futuro
e com o que pode acontecer comigo. Eu acredito que em pouco tempo a gente vai
ter um futuro melhor. Espero que, a partir do ano que vem, já nós possamos ter
um transporte público melhor, trens melhores e mais conforto.
Para o arquiteto, a tendência é de que no
futuro as coisas melhorem.
- Olha, a perspectiva é muito boa para o
futuro. Com a conclusão do Porto Maravilha e das obras da Linha 4 do Metrô, que
ligam Ipanema à Barra da Tijuca, nós devemos ter um Rio de Janeiro melhor. A
grande questão é saber se nós aguentamos até lá, porque a situação atual é
caótica.
Um Rio que você nunca
viu
Em comemoração aos 450 anos do Rio de
Janeiro, o Instituto Moreira Salles, localizado na Gávea, Zona Sul do Rio de
Janeiro, está hospedando duas exposições sobre o Rio Antigo e o Bota Abaixo: “Rio,
primeiras poses e Um passeio pelo Rio”, de Joaquim Manuel de Macedo. O
visitante tem, com isso, a chance de conhecer um pouco mais da história da
Cidade Maravilhosa.
A exposição de Joaquim Macedo reúne cerca de
50 obras que retratam o Rio no século XIX. Ao entrar, o visitante tem a chance
de ver a Ilha das Cobras, um panorama do Rio de Janeiro a partir do Morro do
Castelo e a vista tomada do Passeio Público.
“Fazer de conta que vos achais agora comigo
no aprazível terraço do passeio público do Rio de Janeiro". A citação
apresentada está presente em meio as obras expostas.
Para o aposentado Valdir Garcia, de 65 anos,
o conjunto apresentado foi muito bom e as obras são de inestimável valor: “Eu
gostei bastante da exposição, as fotos foram bem tiradas com um ângulo bastante
apropriado”, conta Garcia.
O bancário Pedro Nascimento, de 53 anos,
também elogiou bastante a obra de Joaquim Macedo: “Eu gostei, achei ótimo... A
qualidade é excelente, o lugar é interessante, o ambiente é ótimo. Tudo é muito
bom”, diz Nascimento.
A segunda exposição, maior em relação a de
Joaquim Macedo, traz fotografias inéditas, como a da Avenida Central, atual Rio
Branco. Os fotógrafos Marc Ferrez e Augusto Malta retratam o Rio pelos seus
olhos.
Além da Avenida Central - resultado do Bota
Abaixo, no século passado -, a mostra também tem fotografias da inauguração da
Avenida Beira Mar em direção à Glória, ao Catete, ao Flamengo e a Botafogo, as
obras de melhoramento do porto do Rio de Janeiro, a Praça XV, entre outros. A
remoção do morro do Castelo também é ilustrada por Augusto Malta. A exposição “Rio:
primeiras poses” fica em cartaz até o dia 31 de dezembro de 2015. Já a
exposição “Um passeio pelo Rio”, de Joaquim Manuel de Macedo, permanece
disponível para visitação até o dia três de maio. A entrada é franca.

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