terça-feira, 26 de maio de 2015

Obras no Centro ‘atrasam‘ cidade do Rio de Janeiro


Revitalização da zona central provoca debates na sociedade
Rafael França

“O Rio de Janeiro continua lindo”. O trecho da música de Gilberto Gil feita em 1969 e eternizada com o passar das décadas pode não ter tanto efeito, hoje, na segunda década do século XXI. Se naquela época o Rio já havia passado pelas primeiras grandes obras na região central da cidade, atualmente a Cidade Maravilhosa ainda sofre com os transtornos das novas edificações.
No início do século XX, o então prefeito Pereira Passos promoveu uma grande reforma arquitetônica e urbanística na cidade. Demoliu prédios e casas e promoveu a criação de várias ruas e avenidas. A Avenida Central, atual Rio Branco, talvez seja o grande exemplo do “Bota Abaixo” da época. Além da criação dela, o prefeito também inaugurou a Avenida Beira Rio, removeu o Morro do Castelo, iniciou a urbanização de Copacabana, entre outras.
Com a escolha, em 2009, do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, o prefeito Eduardo Paes aproveitou o momento e a oportunidade para promover intensas reformas na cidade. O projeto Porto Maravilha talvez seja o grande exemplo disso. Nele, uma grande reforma abrangeria parte da região central da cidade. A demolição da Perimetral, a criação de novos museus e a instalação de um VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) fazem parte, por exemplo, do plano. Até as Olimpíadas do ano que vem, tudo estará pronto.

Trajeto do VLT, que será inaugurado no ano que vem
Divulgação: Prefeitura
Para a empregada doméstica Denise Ferreira, de 47 anos, é complicado chegar à Zona Sul todo dia. Residente da região central de Nova Iguaçu, Denise sofre com o transporte precário e a falta de infraestrutura do centro do Rio.
- É uma loucura chegar às sete e meia da manhã na Gávea. Tenho que levantar às quatro e sair de casa às cinco, senão, não dá. Pego o trem até a Central, depois pego um ônibus até a Zona Sul. As obras no Centro do Rio têm me atrapalhado muito, é complicado.
Não é só Denise que sofre com as obra. O filho dela Matheus Ferreira, de 17 anos, estudante de Direito da UERJ, também se desgasta com tantas mudanças na Cidade Maravilhosa.
- É difícil até pra ele, que só vai até a faculdade. Como é na região do Maracanã, teoricamente ele não deveria sofrer tanto. Infelizmente as condições do trem são piores, porque é um horário superlotado de gente.
Para o arquiteto aposentado Luis Müller, as obras do Porto Maravilha são de vital importância para o Rio de Janeiro.
- Essas obras que o prefeito está fazendo no centro já deviam ter sido feitas há um bom tempo. É compreensível que cause estresse e transtorno à população, mas elas tinham que sair do papel. O Rio de Janeiro estava atrasado na questão arquitetônica e urbanística há algumas décadas
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Futuro de esperança

A rotina descrita por Denise é comum a muitos moradores do Rio de Janeiro. Faltando menos de dois anos para os Jogos Olímpicos, a cidade segue em ebulição. A previsão do Governo do Estado é de que todos os trens da Supervia estejam trocados até as Olímpiadas. Enquanto isso, trabalhadores e comerciantes sofrem as consequências de diversas obras; do Porto Maravilha até a Linha 4 do Metrô.
Para a moradora de Nova Iguaçu, o futuro é de esperança.
- Olha, eu sou muito esperançosa com o futuro e com o que pode acontecer comigo. Eu acredito que em pouco tempo a gente vai ter um futuro melhor. Espero que, a partir do ano que vem, já nós possamos ter um transporte público melhor, trens melhores e mais conforto.
Para o arquiteto, a tendência é de que no futuro as coisas melhorem.
- Olha, a perspectiva é muito boa para o futuro. Com a conclusão do Porto Maravilha e das obras da Linha 4 do Metrô, que ligam Ipanema à Barra da Tijuca, nós devemos ter um Rio de Janeiro melhor. A grande questão é saber se nós aguentamos até lá, porque a situação atual é caótica.

Um Rio que você nunca viu

Em comemoração aos 450 anos do Rio de Janeiro, o Instituto Moreira Salles, localizado na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro, está hospedando duas exposições sobre o Rio Antigo e o Bota Abaixo: “Rio, primeiras poses e Um passeio pelo Rio”, de Joaquim Manuel de Macedo. O visitante tem, com isso, a chance de conhecer um pouco mais da história da Cidade Maravilhosa.
A exposição de Joaquim Macedo reúne cerca de 50 obras que retratam o Rio no século XIX. Ao entrar, o visitante tem a chance de ver a Ilha das Cobras, um panorama do Rio de Janeiro a partir do Morro do Castelo e a vista tomada do Passeio Público.
“Fazer de conta que vos achais agora comigo no aprazível terraço do passeio público do Rio de Janeiro". A citação apresentada está presente em meio as obras expostas.
Para o aposentado Valdir Garcia, de 65 anos, o conjunto apresentado foi muito bom e as obras são de inestimável valor: “Eu gostei bastante da exposição, as fotos foram bem tiradas com um ângulo bastante apropriado”, conta Garcia.
O bancário Pedro Nascimento, de 53 anos, também elogiou bastante a obra de Joaquim Macedo: “Eu gostei, achei ótimo... A qualidade é excelente, o lugar é interessante, o ambiente é ótimo. Tudo é muito bom”, diz Nascimento.
A segunda exposição, maior em relação a de Joaquim Macedo, traz fotografias inéditas, como a da Avenida Central, atual Rio Branco. Os fotógrafos Marc Ferrez e Augusto Malta retratam o Rio pelos seus olhos.

Além da Avenida Central - resultado do Bota Abaixo, no século passado -, a mostra também tem fotografias da inauguração da Avenida Beira Mar em direção à Glória, ao Catete, ao Flamengo e a Botafogo, as obras de melhoramento do porto do Rio de Janeiro, a Praça XV, entre outros. A remoção do morro do Castelo também é ilustrada por Augusto Malta. A exposição “Rio: primeiras poses” fica em cartaz até o dia 31 de dezembro de 2015. Já a exposição “Um passeio pelo Rio”, de Joaquim Manuel de Macedo, permanece disponível para visitação até o dia três de maio. A entrada é franca.

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