Novo Bota-Abaixo complica a vida
de
quem precisar andar pela cidade
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| Orla carioca no início do século XX e hoje Foto: Marcello Cavalcanti |
Diego Andrade
Mais
de 100 anos após o primeiro Bota-Abaixo, o Rio de Janeiro vive novamente outro
período de obras e mudanças estruturais. Quem caminha pelas ruas da cidade,
percebe as alterações na imagem da cidade. Ruas em obras, placas e prédios
levantados são constantemente visíveis. Assim como uma obra em uma casa, essas
modificações trazem transtornos ao morador. Mas não é só nas obras que os dois
momentos têm semelhanças.
Entre
1902 e 1906, a cidade foi revitalizada à moda francesa. O prefeito da época,
Pereira Passos, mudou toda a estrutura da cidade, principalmente da região
central, com a construção da Avenida Rio Branco, da Rua da Carioca e a
derrubada do antigo Morro do Castelo. As obras tinham três aspectos principais:
a estética, a sanitária e a viária. Para impedir que doenças como a malária se
expandissem na cidade, Passos utilizou da ideia do mesmo arquiteto que projetou
as ruas de Paris e as tornou mais largas. A paisagista e urbanista da PUC-Rio
Cecilia Herzog classifica as principais mudanças da cidade durante o período:
-
A cidade precisava ser arejada por conta da propagação das doenças que iam de
encontro ao contrário com o que a modernidade da época implantava. Também teve
o motivo estético que era, principalmente, embelezar a cidade e retirar dali os
crescentes cortiços que deixavam feia a imagem do Rio de Janeiro diante dos
visitantes. Hoje estamos vivendo o mesmo processo- destacou Cecilia.
No
atual Bota-Abaixo, a cidade também procura se embelezar para agradar os
estrangeiros. Entretanto, o motivo é outro: os Jogos Olímpicos Rio-2016. Por
conta disso, quem anda – ou tenta andar – pelas ruas da cidade encontra placas
com a mensagem “desculpe o transtorno”. O prefeito Eduardo Paes em seu programa
político aparece constantemente pedindo desculpas pelas dificuldades vividas
pelos cidadãos durante este período de obras. Assim como Pereira Passos, um dos
lugares que mais vem sofrendo com as obras é o Centro do Rio, em especial a
Zona Portuária. Durante o fechamento e a derrubada do viaduto da Perimetral, o
trânsito na região enfrentou sérios problemas para quem passava pelo local. A
via Binário, rua criada para dar mais mobilidade a quem trafegava na região,
sofria com constantes engarrafamentos.
O futuro
Outra
parte da cidade que vem sofrendo com problemas é a zona oeste. Barra da Tijuca
e Deodoro vão receber boa parte das modalidades esportivas. As obras do Autódromo
e do Parque Aquático, onde ocorrerão às provas de canoagem e canoagem slalom,
criam dificuldades para quem quer ir ao lugar. Na Barra da Tijuca, as obras de
mobilidade urbana estão mudando a rotina de quem vive ou trabalha lá. A
estudante de jornalismo Nathalia Alves, moradora de Jacarepaguá, relatou o que
mudou na sua vida após a implantação das obras:
-
Antigamente, antes das obras, eu saía de casa às 7h30 por conta do
engarrafamento que a Barra normalmente têm. Hoje, preciso acordar às 5h30, para
sair às 6h30, para tentar chegar no meu trabalho a tempo, que é próximo onde
estavam acontecendo as obras do BRT e que ainda ocorrem as da linha 4 do metrô.
Ou seja, perco, todo dia, uma hora de sono que poderia ter sem o engarrafamento.
A
expectativa da Prefeitura é que as obras na região melhorem o fluxo de
movimentação na região. Hoje, o BRT liga de Madureira a Barra e da Barra ao
Galeão, o que já o faz ser uma das principais vias de acesso da cidade. O metrô
vai ser ligado da Estação General Osório, em Ipanema, até a Barra, onde será a
via de acesso mais rápida de quem vai da Zona Sul em direção ao local.
Meio ambiente em xeque
Se as obras na cidade do Rio pretendem trazer mais mobilidade urbana, um ponto está sendo questionado: a obra do campo de golfe olímpico. O local vem sofrendo com críticas e protestos de grupos ambientais que acusam a prefeitura de usar uma zona de proteção ambiental para a construção do campo. Localizado na Barra da Tijuca, área está instalada dentro de uma zona ambiental, que teve sua divisão modificada para abrigar o projeto e um empreendimento imobiliário.
A construção
do campo de golfe foi questionada pela paisagista e urbanista da PUC-Rio
Cecília Herzog, que afirmou que as consequências da criação do campo podem
trazer muitos riscos ao meio ambiente:
- A construção do campo é uma agressão à natureza.
Não se pode pegar uma região preservada e simplesmente destruir para construir
um point de lazer para turista ver. É
um absurdo. O que será destruído com o campo poderá ser recuperado? Acho que
não e a prefeitura parece não estar se importando com isso – denuncia a
paisagista
O prefeito Eduardo Paes declarou recentemente “odiar” ter que fazer a obra -que já defendeu no passado - e disse que
“não teria feito este campo de golfe nunca” se dependesse dele. Paes afirmou
que só levou o projeto adiante porque “todos os pareceres” mostrava que os
demais campos existentes no Rio – o Gávea Golf e o Itanhangá – não serviam para
as Olimpíadas.
O
campo de golfe olímpico é um dos pontos mais sensíveis na organização dos Jogos
de 2016: além de ser considerada uma das três obras com cronograma mais
apertado. O presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach,
declarou em visita ao Rio numa conversa com universitário que “o prefeito
pressionou muito pela construção desse campo” e de que tem certeza de que ele
pensou muito antes da decisão de construí-lo”

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