Obras hoje repetem fórmulas do século passado
Lucas Campelo
O
Rio de Janeiro hoje parece repetir uma velha e conhecida história. Se já dizia
João do Rio: “As ruas são tão humanas, vivem tanto e formam de tal maneira os
seus habitantes, que há até ruas em conflito com outras”, as ruas da Cidade Maravilhosa
vivem um conflito que começou no século XX. Canteiro de obras em todos os
lados, revitalização do Porto, revoltas e remoção de moradores. A história se
repete. Nem sempre a Cidade Maravilhosa foi maravilhosa, de fato. Antes das
reformas urbanas do prefeito do Rio de Janeiro entre 1902 e 1906, Pereira
Passos, a cidade tinha vários apelidos como “Porto Sujo”. Ninguém sequer queria
desembarcar na “Cidade da Morte”. Os navegantes simplesmente passavam direto
pois era um lugar de risco. As faltas de planejamento urbano e de
infraestrutura sanitária fizeram com que o Rio se tornasse um reduto de
doenças.
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| Avenida Central após a Reforma Passos (créditos: portalarquitetonico.com) |
Para
o professor de arquitetura e urbanismo da Universidade Mackenzie Luiz Guilherme
de Castro, a reforma de Passos teve um impacto gigantesco na vida
sociocultural, demarcando uma clara diferença de atividades urbanas para cada
classe social. “Criou-se um centro e uma imagem de cidade moderna, destruíram-se
largos trechos e removeu-se gente que morava na área, em nome de melhores
condições sanitárias e embelezamento estético, mas o preço foi alto”, afirmou.
Não
tão diferente, o atual prefeito do Rio, Eduardo Paes, corre contra o tempo para
embelezar a cidade e torná-la apta a sediar um evento mundial, as Olimpíadas
2016. Com a mesma ideia de “para ter omeletes, precisamos quebrar ovos”, os
“ovos” mais quebrados são os dos cariocas. Trânsito lento, ônibus cheios e
insegurança. A qualidade de vida de quem mora no Rio de Janeiro e sofre desse
desvio diariamente caiu de forma notável. A estudante de Letras Vitória Torres,
20 anos, conta que chegar à faculdade virou questão de sorte. “É praticamente impossível
eu calcular o tempo para chegar porque sempre tem um imprevisto. Tem dia que
saio da faculdade às 12:50 e chego em casa às 17h. Pego engarrafamento na Vila Militar,
que quase nunca tem trânsito a essa hora”. A jovem, que se desloca do bairro de
Bangu até a Ilha do Fundão, confessa não
suportar a mudança de rotina provocada pelas obras. “Desgastante demais. Chego
em casa sem vontade de fazer nada, sendo que ainda preciso estudar. Isso sem
contar as aulas perdidas. É muito comum tanto alunos quanto professores se
atrasarem”.
O professor Luiz Guilherme de Castro analisa a
situação atual fazendo uma breve comparação com as reformas de Passos. “É
importante destacar que tanto as reformas do século passado quanto as atuais
não foram à toa. Existia a necessidade de melhores condições sanitárias,
inclusive para o povo. Mas por outro lado, não dá para ignorar os efeitos
colaterais. Planejamento é essencial para tudo”.
E agora?
Já
no cenário pré-Olimpíada, 67 mil pessoas tiveram de se mudar, segundo o blog Estadão Rio, do jornal Estado de S. Paulo. O número supera ao da
remoção de Pereira Passos e Carlos Lacerda juntos. Lacerda governou o estado da
Guanabara de 1960 até 1965. O assunto já rendeu até pesquisa que sairá em livro
a pouco tempo do Rio sediar as próximas Olimpíadas. SMH 2016: Remoções no Rio de Janeiro olímpico traduz em mapas as
remoções feitas na gestão de Eduardo Paes (PMDB) entre os anos de 2009 e 2013.
Os números mostram mais despejos do que Carlos Lacerda e Pereira Passos juntos,
governos também marcados por remoções.
O
trabalho é fruto da pesquisa de conclusão da graduação em arquitetura e urbanismo
de Lucas Faulhaber, formado pela Universidade Federal Fluminense. A jornalista
Lena Azevedo e o fotógrafo Luiz Baltar se uniram a um projeto criado pela
Mórula Editorial para escrever o livro.
Com
a pesquisa, o objetivo de Faulhaber era provar que, enquanto muitos colocam a falta
de planejamento como motivo de termos uma “cidade partida”, a exclusão ocorre
sobretudo com uma estratégia de planejamento urbano. “Ao investigar a produção
dos planos, leis e projetos estruturantes do Rio, pude perceber um elevadíssimo
número de desapropriações e posteriormente de remoções que estavam sendo
consideradas fundamentais para a realização de projetos, principalmente nos
últimos anos”, explica ao Estado de S.
Paulo.


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