Cariocas questionam
o futuro da cidade
e a preocupação tem fundamento
Nina Anselmo
Barulho. Buraco.
Transtorno. Caos. Esse é o cenário do canteiro de obras que o Rio de Janeiro se
transformou. Com a notícia de uma Copa do Mundo e de uma Olimpíada aqui no
Brasil, muito tinha de ser feito. O que muitas pessoas não contavam é que todas
as modificações seriam feitas ao mesmo tempo.
No início do
século XX, durante o governo do então prefeito Pereira Passos, a cidade passou
por uma situação muito similar. O Rio de Janeiro sofria com muitas doenças e com
a falta de um sistema viário de excelência. Foi por esse motivo que o “Bota
abaixo” começou. Cortiços foram destruídos. Avenidas largas, como a Av.
Central, atual Rio Branco, foram construídas. A cidade foi arejada para que
doenças que assombravam a cidade como a malária e a febre amarela tivessem um
fim. As reformas feitas nessa época tinham três objetivos bases, o de embelezar
a cidade, resolver problemas sanitários e viários.
Av. Rio Branco em construção do VLT
O “Bota abaixo” atual
não é muito diferente do vivido anteriormente. Para onde olhamos, avistamos
uma obra, um buraco, uma mudança sendo feita. A cidade está um caos. Ratos e
baratas andam livremente em lugares que antes isso não acontecia isso por causa
das enormes crateras abertas para a implantação das estações. A falta de
segurança em partes até então seguras. Transtorno no tráfego de veículos. Esse
é o cenário atual visto pelos cariocas diariamente. Se olharmos bem, muitas
semelhanças são encontradas nos dois períodos, como a necessidade de
embelezamento da cidade, mas a solução do trânsito caótico é o foco nas duas
experiências.
Para o arquiteto e
urbanista Thiago Andrade, da ATHUS Arquitetura e Urbanismo, as obras no Rio de
Janeiro deveriam ter sido mais bem planejadas, e não feitas todas ao mesmo
tempo. “Como bem sabemos, toda ação gera uma reação. E algumas delas
são difíceis de prever. Principalmente, quando se trata da cidade, onde o
principal atuante é o ser humano e sua forma de apropriação do espaço.”, declarou Thiago afirmando ainda que
não sabe ao certo como seria a melhor maneira, que isso deveria ser melhor estudado.
A forma como está sendo feita, seguramente, não é a melhor opção. A assistente
social Flávia Cristina concorda com o urbanista. Ela, que antes demorava uma
hora e meia para sair de sua casa na Penha e chegar para trabalhar no Centro da
cidade, hoje demora três horas. Flávia acredita que tudo vá melhorar no futuro,
mas confirma que hoje os cariocas vivem em um caos total, sem qualidade de
vida.
Daqui para frente
O futuro é sempre muito difícil de prever. O fato é que 11%
das obras programadas para as Olimpíadas já foram entregues. 89% delas estão
encaminhadas. Não há nenhuma intervenção em fase de planejamento ou licitação.
Algumas obras não serão finalizadas a tempo, como o bondinho de Santa Teresa,
que está para ser entregue há meses, mas sempre há um problema que impede a
finalização da obra. Por outro lado, algumas obras já foram entregues e estão
fazendo muito sucesso com os visitantes, como o MAR por exemplo. O MIS na orla
de Copacabana e o Aquário também são alguns exemplos que já estão em fase de
acabamento e prometem chamar muitos visitantes após a inauguração.
MAR, localizado na Praça Mauá, faz parte da reforma no Centro do Rio
Urbanista conta aspectos do Rio
O arquiteto e urbanista Thiago Andrade é um otimista
convicto. Apaixonado pelo Rio de Janeiro, ele tem certeza de que a cidade está
no caminho certo, mas não deixa de lado suas críticas como um profissional do
ramo. Thiago acredita que as obras na
cidade foram mal planejadas, mas eram necessárias. “Acredito sim que havia
necessidade, de muitas obras de infraestrutura, urbanização e novas adaptações.
Mas muitas obras que estão sendo executadas não passam de agentes de
‘maquiagem’, quando muitas das obras, realmente, necessárias não saem do papel
ou nem a ele chegam.” O urbanista afirmou ainda que é difícil saber como será o
futuro, tudo depende de muitos fatores segundo ele, mas o principal é a forma
como as pessoas vão receber essa nova cidade.
As obras pela cidade estão trazendo o desenvolvimento da
cidade. O metrô, o VLT, o BRT, museus, arte. Tudo isso faltava na cidade do Rio
de Janeiro. Se as obras finalizarem com sucesso não faltará mais. No entanto,
para ele, o Rio parece ter parado em algum ponto da evolução. Isso porque se
comparado com outros grandes centros urbanos do mundo, notamos diferenças
estruturais fundamentais, como a falta de um transporte público de qualidade
capaz de transportar grande número de passageiros. “Um grande exemplo disto, é
o metrô de nossa cidade. Onde podemos perceber que até mesmo o crescimento é
deficitário.”, garante o urbanista.
Thiago tem certeza que quando tudo acabar, a cidade ainda
terá muitos problemas, mas os cariocas estarão mais bem assistidos, terão uma
infraestrutura melhor para encarar seu dia a dia. Ele não vê nenhuma obra que
não seja necessária, mas algumas intervenções foram feitas sem planejamento e
estudo para saber se era emergencial ou não. O fato de não ter uma pesquisa que
embasasse as obras fez com que a lista de prioridade tenha itens não tão
prioritários assim.
O Rio de Janeiro está observando seu prazo para ser entregue
chegar e as pessoas estão se perguntando o tempo todo quando todo esse
transtorno vai acabar. As Olimpíadas estão chegando e de um jeito ou de outro o
final das obras também, só resta torcer para que tudo acabe o mais rápido
possível, e a cidade fique linda e funcional.

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