Um século depois, cidade passa por uma nova reforma
Wallace Colares
O "Bota-Abaixo" era assim que o povo chamava
quando queria se referir a reforma
urbana acontecida na gestão do prefeito Pereira Passos, na cidade do
Rio de Janeiro, no início do século XX. Hoje, um século depois do famoso
“Bota-Abaixo”, a cidade passa por mais um processo de reforma urbana.
Esse nome foi dado porque muitas moradias foram literalmente jogadas
para baixo, em especial o Morro do Castelo, localizado no coração do Centro da
cidade. Em 1902, o então presidente, Rodrigues Alves delega ao prefeito do Rio
a tarefa de transformar a cidade (Capital Federal, na época), numa nova
“Paris”, de forma que atendesse aos padrões que a modernidade impunha as
grandes cidades.
| Palácio Monroe fazia parte da antiga Avenida Central, construída no início do século passado Divulgação |
O atual cenário do Rio em relação ao crescimento desordenado das favelas
teve origem no período citado acima, e a tendência é que aumente com as
constantes mudanças ocorridas. Segundo o urbanista formado pela UFF Lucas
Faulhaber, o que ocorre hoje em dia é o mesmo que no passado: remoção dos
pobres.
Nos tempos de Pereira Passos, coube ao renomado sanitarista Oswaldo Cruz
a missão de transformar a “Cidade da Morte” na “Cidade Maravilhosa”. Vacinação obrigatória,
saneamento básico, abastecimento de água estavam entre as medidas tomadas pelo
sanitarista. De acordo com Lucas, no passado, a desculpa para a remoção era por
falta de higiene, hoje em dia são os grandes eventos na cidade.
O urbanista afirma que mesmo sem os megaeventos, as remoções são antigos
desejos da elite carioca. Programas governamentais como o Minha casa, Minha
vida têm tirado a população pobre das áreas mais valorizadas e deslocado para
áreas periféricas.
Nesta época do primeiro “Bota-Abaixo”, a
cidade possuía pouco menos que um milhão de habitantes, tendo uma grande
quantidade de negros (ex-escravos e seus descendentes), de pessoas vindas de
outras regiões que migravam do campo em busca de oportunidades de trabalho nas
fábricas e moinhos ou nas atividades portuárias vivendo bem no Centro da cidade
Um século depois, a população carioca cresceu de forma acelerada e
hoje possui pouco mais de 16 milhões de
habitantes. E mesmo com o passar de mais de cem anos, a população negra
continua concentrada nas áreas mais pobres da cidade e sofre diariamente com os
descasos das autoridades e com o preconceito das elites.
As obras nos Rio de Janeiro têm prejudicado a
vida de grande parte da população. Fabiana
Alves, 27 anos, é moradora do bairro de Deodoro, no subúrbio do Rio. “Sofro diariamente com os problemas causados
pelas obras das olimpíadas. Tanto em casa como indo pro trabalho o estresse é
garantido. Moro na parte que chamam de “inferninho”, próximo ao campo do
Gericinó e de grande parte do Complexo Esportivo de Deodoro.”
“ Acho que se tivesse um melhor
planejamento seria melhor. Por muito tempo eu via os trabalhadores andando pra
lá e pra cá sem fazer nada. Mas de um tempo pra cá, talvez pelo atraso, a
confusão é intensa. As máquinas quebram tudo, inclusive as ruas, que ficam
cheias de buraco. É comum sair de casa pela manhã e ver vários carros e ônibus
congestionados no trânsito que dura horas.”
“ Como moro um pouco longe da estação e os
ônibus não andam, pegava moto táxi até a na estação de Deodoro. E mesmo assim, a
viagem demorava muitas vezes por causa dos canteiros de obras, acho que é da
Transcarioca ou Arena Deodoro, sei lá...Só sei que é um caos.”
Lembranças de um Rio Antigo
Em homenagem aos 450 anos da cidade do Rio
de Janeiro, o Instituto Moreira Salles realiza a exposição “ Rio: Primeiras
Poses”. A curadoria é de Sergio Burgi. O rico acervo reúne obras de diversos
fotógrafos com destaque para Marc Ferrez e Augusto Malta, grandes nomes da
fotografia do final do século XX.
Ferrez
foi um dos pioneiros a desenvolver e explorar a fotografia de paisagem no
Brasil. Na obra do artista é possível compreender melhor a remodelação do Rio
com registro das remoções de moradias e do Morro do Castelo.
Destaque para o desenvolvimento tanto da
cidade quanto dos aparatos técnicos utilizados pelo fotógrafo. Estão presentes
desde paisagens do final do século XIX às fotos esteroscópicas em cores.
Possui ainda o projeto editorial definitivo
da Avenida Central, além, de 3 exemplares do álbum da Avenida e os equipamentos
utilizados por Marc tais como câmera estereoscópica e câmera Brandon, tripé,
disparador entre os acessórios.
O designer Marcos Paulo destacou o vídeo de
33 minutos exibido na exposição: “ Achei impressionante aquela projeção enorme
com fotos ampliadas. A gente consegue viajar no tempo.”
Augusto Malta foi fotógrafo da prefeitura
durante a gestão Pereira Passos. Sendo direcionado para a documentação
detalhada de todas as ruas que teriam seu traçado modificado.
Em paralelo aos trabalhos como fotógrafo da
prefeitura, realizou a documentação da Light, empresa fornecedora de energia
elétrica. O resultado foi um vasto repertório dos bondes elétricos em atividade
e da recente iluminação pública em suas fotos. O artista explora também as
paisagens naturais e pontos turísticos como Pão de Açúcar, Corcovado e a Lapa.
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