terça-feira, 26 de maio de 2015

Novo “Bota-Abaixo”, antigos problemas no Rio





Um século depois, cidade  passa por uma nova reforma

 Wallace Colares


    O "Bota-Abaixo"  era  assim que o povo  chamava quando queria  se referir  a  reforma urbana  acontecida na gestão do prefeito Pereira Passos, na  cidade  do Rio de Janeiro, no início do século XX. Hoje, um século depois do famoso “Bota-Abaixo”, a cidade passa por mais um processo de reforma urbana.

    Esse nome foi dado porque muitas moradias foram literalmente jogadas para baixo, em especial o Morro do Castelo, localizado no coração do Centro da cidade. Em 1902, o então presidente, Rodrigues Alves delega ao prefeito do Rio a tarefa de transformar a cidade (Capital Federal, na época), numa nova “Paris”, de forma que atendesse aos padrões que a modernidade impunha as grandes cidades.

Palácio Monroe fazia parte da antiga Avenida Central, construída no início do século passado
Divulgação

    O atual cenário do Rio em relação ao crescimento desordenado das favelas teve origem no período citado acima, e a tendência é que aumente com as constantes mudanças ocorridas. Segundo o urbanista formado pela UFF Lucas Faulhaber, o que ocorre hoje em dia é o mesmo que no passado: remoção dos pobres.

    Nos tempos de Pereira Passos, coube ao renomado sanitarista Oswaldo Cruz a missão de transformar a “Cidade da Morte” na “Cidade Maravilhosa”. Vacinação obrigatória, saneamento básico, abastecimento de água estavam entre as medidas tomadas pelo sanitarista. De acordo com Lucas, no passado, a desculpa para a remoção era por falta de higiene, hoje em dia são os grandes eventos na cidade.

     O urbanista afirma que mesmo sem os megaeventos, as remoções são antigos desejos da elite carioca. Programas governamentais como o Minha casa, Minha vida têm tirado a população pobre das áreas mais valorizadas e deslocado para áreas periféricas.

      Nesta época do primeiro “Bota-Abaixo”, a cidade possuía pouco menos que um milhão de habitantes, tendo uma grande quantidade de negros (ex-escravos e seus descendentes), de pessoas vindas de outras regiões que migravam do campo em busca de oportunidades de trabalho nas fábricas e moinhos ou nas atividades portuárias vivendo bem no Centro da cidade
   
    Um século depois, a população carioca cresceu de forma acelerada e hoje  possui pouco mais de 16 milhões de habitantes. E mesmo com o passar de mais de cem anos, a população negra continua concentrada nas áreas mais pobres da cidade e sofre diariamente com os descasos das autoridades e com o preconceito das elites.

   As obras nos Rio de Janeiro têm prejudicado a vida de grande parte da população. Fabiana Alves, 27 anos, é moradora do bairro de Deodoro, no subúrbio do Rio.  “Sofro diariamente com os problemas causados pelas obras das olimpíadas. Tanto em casa como indo pro trabalho o estresse é garantido. Moro na parte que chamam de “inferninho”, próximo ao campo do Gericinó e de grande parte do Complexo Esportivo de Deodoro.”
     “ Acho que se tivesse um melhor planejamento seria melhor. Por muito tempo eu via os trabalhadores andando pra lá e pra cá sem fazer nada. Mas de um tempo pra cá, talvez pelo atraso, a confusão é intensa. As máquinas quebram tudo, inclusive as ruas, que ficam cheias de buraco. É comum sair de casa pela manhã e ver vários carros e ônibus congestionados no trânsito que dura horas.”
     “ Como moro um pouco longe da estação e os ônibus não andam, pegava moto táxi até a na estação de Deodoro. E mesmo assim, a viagem demorava muitas vezes por causa dos canteiros de obras, acho que é da Transcarioca ou Arena Deodoro, sei lá...Só sei que é um caos.”



Lembranças de um Rio Antigo


    Em homenagem aos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, o Instituto Moreira Salles realiza a exposição “ Rio: Primeiras Poses”. A curadoria é de Sergio Burgi. O rico acervo reúne obras de diversos fotógrafos com destaque para Marc Ferrez e Augusto Malta, grandes nomes da fotografia do final do século XX.

     Ferrez foi um dos pioneiros a desenvolver e explorar a fotografia de paisagem no Brasil. Na obra do artista é possível compreender melhor a remodelação do Rio com registro das remoções de moradias e do Morro do Castelo.

    Destaque para o desenvolvimento tanto da cidade quanto dos aparatos técnicos utilizados pelo fotógrafo. Estão presentes desde paisagens do final do século XIX às fotos esteroscópicas em cores.

    Possui ainda o projeto editorial definitivo da Avenida Central, além, de 3 exemplares do álbum da Avenida e os equipamentos utilizados por Marc tais como câmera estereoscópica e câmera Brandon, tripé, disparador entre os acessórios.

    O designer Marcos Paulo destacou o vídeo de 33 minutos exibido na exposição: “ Achei impressionante aquela projeção enorme com fotos ampliadas. A gente consegue viajar no tempo.”

    Augusto Malta foi fotógrafo da prefeitura durante a gestão Pereira Passos. Sendo direcionado para a documentação detalhada de todas as ruas que teriam seu traçado modificado.


    Em paralelo aos trabalhos como fotógrafo da prefeitura, realizou a documentação da Light, empresa fornecedora de energia elétrica. O resultado foi um vasto repertório dos bondes elétricos em atividade e da recente iluminação pública em suas fotos. O artista explora também as paisagens naturais e pontos turísticos como Pão de Açúcar, Corcovado e a Lapa.







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