Paes quer abrir o horizonte da Baía
de Guanabara a toda a população
Maria Eduarda Azeredo
Durante o século XIX e XX, o Rio de Janeiro cresceu
desordenadamente. Em 1763, a cidade tornou-se capital do Brasil e anos depois,
em 1808, a Família Real chegou ao país. Com isso, a população aumentou
consideravelmente. Ao mesmo tempo, milhares de pessoas desfavorecidas buscavam
por oportunidades na cidade e já no início do século XX, o Rio de Janeiro tinha
uma população de mais de 500 mil habitantes. Quem tinha a renda mais baixa
morava próximo ao Centro da Cidade. Muitas vezes, as moradias eram casarões,
nos quais diversas famílias dividiam o espaço em situação de penúria, os
conhecidos cortiços.
Nesta época, o Rio de Janeiro era
conhecido como um antro de doenças tropicais como a varíola e a febre amarela. As
autoridades diziam que a acumulação de pessoas em um espaço reduzido era a
causa. As elites acreditavam que estes habitantes deveriam ser retirados da
região para dar espaço a uma ‘limpeza’ para a própria burguesia local.
O prefeito do Rio de Janeiro, Pereira
Passos, colocou este plano em prática com a ajuda de Rodrigues Alves, a partir
de 1901. O objetivo era possibilitar a circulação de ar e de pessoas e
dificultar a formação de barricadas na parte mais pobre da população. Esta
política de derrubar as velhas construções da capital ficou conhecida como o
“Bota-Abaixo”.
Depois de aproximadamente 110 anos, a
cidade do Rio de Janeiro volta à situação dos séculos anteriores. Nos últimos cinco
anos, o Rio de Janeiro vem sofrendo alterações devido às obras urbanas para a
Copa de 2014 e para as Olimpíadas de 2016. Um dos primeiros projetos de Sergio
Cabral juntamente com o prefeito do Rio, Eduardo Paes, foi a expansão da Linha
4 do metrô. As escavações começaram na metade de 2010 com a perfuração do Morro
do Focinho do Cavalo, parte do Maciço da Tijuca.
De acordo com o arquiteto e urbanista
Renato Campos, a maior diferença entre as transformações do governo de Pereira
Passos e de Eduardo Paes é o radicalismo das intervenções e os transtornos
causados à população durante as obras: “A intenção de Pereira Passos era sanear
o Centro, abrindo a Av. Rio Branco, larga e arejada. Já Eduardo Paes quer
eliminar o “monstrengo” do viaduto da Perimetral, que só privilegiava o
transporte individual, e abrir o horizonte da Baia de Guanabara a toda a
população carioca”.
| Escavações de túnel que substituirá o Elevado da Perimetral aumentará a capacidade de tráfego na região em 27%
Crédito: CDPURP
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E o futuro?
Durante o ‘Bota-Abaixo’ de Pereira
Passos, o Centro da Cidade do Rio de Janeiro se tornou o foco das alterações.
Agora, o Estado do Rio de Janeiro optou por concentrar na Barra da Tijuca a
maioria de seus equipamentos olímpicos e é para lá que os investimentos
públicos e de infraestrutura urbana, principalmente o BRT, estão direcionados.
Com isso, forma-se uma nova centralidade urbana para empreendedores, à custa de
investimentos públicos e do esvaziamento de outros bairros.
O arquiteto Luiz Fernando Janot lembra
que um Centro vazio representa a negação da vida cívica em uma cidade. Já
Renato Campos acredita que o futuro do Centro será muito promissor. Segundo o urbanista,
o Centro da Cidade voltará a ser agregador, atraindo o Carioca ao passeio e ao
lazer, voltando a atrair habitantes e não apenas trabalhadores.
“Na Barra a deficiência de transporte
coletivo continuará, uma vez que as obras previstas são muito poucas para atender
às necessidades da população”, afirma Campos. As obras atrairão um fluxo maior
de visitantes e as obras de mobilidade ainda não será o suficiente, o estresse
viário será continuo até o poder público correr atrás da indigência. Renato
Campos acrescenta que “Com a crescente população aliada a vinda de turistas para
o Brasil, os transportes continuarão deficientes e, isto tornará a região ainda
mais caótica”.
A 'repopulação' do Centro do Rio
A Avenida Rio Branco ligará duas áreas
com um imenso potencial agregador: O Aterro, um dos maiores parques urbanos do
mundo e o Cais do Porto, agora preparado para o lazer.
Esta ligação unirá a Gamboa, uma área
rica em história, e o Morro da Providência com a modernidade de diversos
prédios comerciais e residenciais que virão a reboque da intervenção urbana. De
acordo com Renato Campos isto atraíra moradores para o Centro da Cidade do Rio
de Janeiro.
Para Campos, hoje, os maiores
problemas das reformas para as Olimpíadas além do descumprimento do prazo, é a
qualidade de vida imposta aos cidadãos da cidade. Com a atual crise econômica
os orçamentos das obras estão sendo revistos e aumentados exorbitantemente. Em
consequência, o povo paga mais.
Além disso, quase todos os aspectos do
cotidiano do carioca são afetados. O problema mais visível e com o maior
registro de reclamações é a mobilidade urbana. Os direitos de ir e vir do
cidadão são absolutamente afetados durante qualquer obra, enquanto a cidade
ainda está funcionando.
O barulho, a poeira, a falta de
segurança, as mudanças no trânsito também são queixas diárias. Para grande
porcentagem dos moradores de classe média alta da Zona Sul, um dos aspectos
mais marcantes é o aumento considerável de assaltos nas áreas bloqueadas por
tapumes. Também, a falta de vaga e as modificações no trânsito das ruas estão
constantemente na lista de reclamações.
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