quinta-feira, 21 de maio de 2015

De Passos a Paes




Dos cortiços à Vila Autódromo: a relocação dos pobres
 continua sendo realidade no Rio

                                                                                                           João Felippe Castro
   
   No início do século XX, o então prefeito do Rio, Pereira Passos, realizou uma série de obras na cidade. Período que ficou conhecido como “Bota-Abaixo”. Alguns anos depois, na década de vinte, o prefeito Carlos Sampaio organizou o trabalho de demolição do Morro do Castelo, que também marcou a então Capital da república. Hoje, com as mudanças urbanas promovidas para os eventos esportivos, principalmente as Olimpíadas, o Rio de Janeiro está, novamente, repleto de canteiros de obras. Sede dos jogos olímpicos e da final da última Copa do Mundo, a cidade passa, novamente, por importantes mudanças estruturais. Entretanto, antigos e novos problemas assombram a cidade.


    O Centro da cidade no início do século passado era habitado, em sua grande maioria, pelos pobres. Eles moravam em casarões antigos, superlotados e com um nível precário de higiene. As ruas eram estreitas e de difícil passagem para os carros. Diante desse cenário, O presidente Rodrigues Alves juntamente com o prefeito Pereira Passos deram início a uma série de obras no Rio de Janeiro. Demoliram os cortiços e alargaram as vias. Os pobres ficaram desabrigados e foram para os morros onde construíram as primeiras favelas.



    Hoje, os moradores de baixa renda voltam a conviver com esse problema. A doméstica Aparecida de Souza moradora da Vila Autódromo, na Barra da Tijuca, terá que se mudar, pois o local dará lugar a um condomínio. Este, oriundo de uma negociação da Prefeitura com um conjunto de construtoras pela construção do Parque Olímpico e da Vila dos Atletas, para as Olimpíadas. “Eles não estão nem aí para o pobre. Ele que se vire. Tenho vários conhecidos que já sofreram com esse tipo de coisa (desapropriação)”.

     Na opinião do historiador Walter Assad, a questão da desapropriação é algo que se repete constantemente. “Vimos isso com Passos, com Lacerda e agora não está sendo diferente com o Paes. E em todas as ocasiões, a proximidade com o pobre gera uma pressão da elite e isso alavanca a desapropriação por parte das autoridades”.



    As obras de demolição do Morro do Castelo começaram em 1920, na gestão do prefeito Carlos Sampaio. As autoridades da época, reforçadas por sanitaristas, diziam que o motivo da extinção do morro era que ele impedia a circulação de ventos, o que contribuía para a propagação de doenças e epidemias.          

    A demolição do Morro do Castelo levanta outra questão importante, a não preservação dos patrimônios da cidade. No caso do Morro, que foi o local onde o Rio foi refundado, depois da expulsão dos franceses em 1567, importantes monumentos da época como a Fortaleza e a Igreja de São Sebastião não foram poupados.

    Para o urbanista Ricardo Rinaldi, o Brasil não tem o costume de preservar sua história. “Arquitetura também é arte e como arte deveria ser preservada. No entanto, o que vemos é o capital falando mais forte. As construções e demolições de prédios no Rio são completamente desordenadas. Você anda em ruas que só têm prédios baixos e antigos, aí, de repente, surge um gigante de 20 andares construído há menos de 10 anos.”


E o legado?

    Para Ricardo Rinaldi esses eventos são importantes no sentido de acelerar o processo de modernização de algumas carências da cidade. No entanto, a própria aceleração acaba sendo um grande problema. “Falta planejamento e a falta de planejamento gera atraso. O atraso traz consigo a pressa. E é nesse ponto que a população é prejudicada. O legado que era para ser de 100% fica bem abaixo disso”. O Pan-Americano é um exemplo que os cariocas costumam citar quando se fala em legado. O que se vê é que realmente poucas obras continuam sendo utilizadas

    Entre as obras do Pan, algumas foram reaproveitadas e outras vão deixar de existir. São exemplos de reaproveitamento, o Estádio de Remo da Lagoa que virou local de entretenimento, com cinemas e restaurantes e a Arena Multiuso que hoje é uma das principais casas de show do Rio.

    Na opinião de Walter Assad, o legado do Pan é um exemplo histórico do que não deve acontecer nas Olimpíadas. “O que ficou do Pan? Quase nada. O Maria Lenk será subaproveitado. Teremos que construir outro parque aquático. O Velódromo, vai ser demolido. Ou seja, gastam-se milhões, mas, no final, tudo vira poeira de novo.”

    No Brasil, menos de um ano após a Copa, alguns estádios estão com os dias contados. Em estados que não possuem times capazes de atrair público, as arenas se tornaram um problema. Para Ricardo, a antecedência é a chave de tudo. “O projeto todo tem que ser muito bem pensado e com alguns anos de antecedência. O antes, o durante e o depois tem que ter o mesmo peso de importância.”


Trânsito continua sendo um dos principais transtornos do carioca

    Os moradores do Rio de Janeiro sofrem com o trânsito cada vez mais caótico. Em recente pesquisa realizada por uma empresa holandesa de tecnologia de transportes, o Rio aparece em terceiro lugar entre as cidades com mais trânsito no mundo. Na PUC-Rio, que receberá uma estação de metrô, um levantamento apontou o trânsito como a principal reclamação dos alunos. O aluno de engenharia Pedro Landim parou de ir de carro para a universidade por causa do trânsito. “Pra mim, não vale mais a pena, tenho que sair de casa cedo pra conseguir vaga no estacionamento. Fora que me estresso muito com o engarrafamento”.
    Ricardo Rinaldi aponta para o futuro do trânsito carioca, com pouco otimismo. “O trânsito vai continuar existindo depois das Olimpíadas, ainda estaremos muito defasados em termos de transporte público. Você vai à Paris, Londres e Nova Iorque, por exemplo, e lá você vê mais de 10 linhas de metrô. Nós teremos apenas quatro. Transporte de massa tem que ser metrô.”
    Na opinião de Aparecida de Souza, nem tudo é “para inglês ver”. Apesar dos problemas e da superlotação em alguns momentos, a doméstica considera o BRT uma mudança importante em sua rotina. “Antes, eu demorava muito mais para chegar ao trabalho. Tinha que acordar mais cedo, era chato. O BRT me ajudou muito nisso.”
    Para Ricardo, o BRT é realmente uma boa saída para melhorar a situação do tráfego na cidade. “Várias metrópoles utilizam o BRT, no mundo. Tanto países do primeiro quanto do terceiro mundo. No entanto, o BRT tem que funcionar como uma rede, temos que integrá-lo à cidade.”







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