Dos cortiços à Vila Autódromo: a relocação dos pobres
continua sendo realidade
no Rio
João Felippe Castro
No
início do século XX, o então prefeito do Rio, Pereira Passos, realizou uma
série de obras na cidade. Período que ficou conhecido como “Bota-Abaixo”. Alguns
anos depois, na década de vinte, o prefeito Carlos Sampaio organizou o trabalho
de demolição do Morro do Castelo, que também marcou a então Capital da
república. Hoje, com as mudanças urbanas promovidas para os eventos esportivos,
principalmente as Olimpíadas, o Rio de Janeiro está, novamente, repleto de
canteiros de obras. Sede dos jogos olímpicos e da final da última Copa do
Mundo, a cidade passa, novamente, por importantes mudanças estruturais.
Entretanto, antigos e novos problemas assombram a cidade.
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O Centro da cidade no início do século
passado era habitado, em sua grande maioria, pelos pobres. Eles moravam em
casarões antigos, superlotados e com um nível precário de higiene. As ruas eram
estreitas e de difícil passagem para os carros. Diante desse cenário, O
presidente Rodrigues Alves juntamente com o prefeito Pereira Passos deram
início a uma série de obras no Rio de Janeiro. Demoliram os cortiços e
alargaram as vias. Os pobres ficaram desabrigados e foram para os morros onde
construíram as primeiras favelas.
Hoje, os
moradores de baixa renda voltam a conviver com esse problema. A doméstica
Aparecida de Souza moradora da Vila Autódromo, na Barra da Tijuca, terá que se
mudar, pois o local dará lugar a um condomínio. Este, oriundo de uma negociação
da Prefeitura com um conjunto de construtoras pela construção do Parque
Olímpico e da Vila dos Atletas, para as Olimpíadas. “Eles não estão nem aí para
o pobre. Ele que se vire. Tenho vários conhecidos que já sofreram com esse tipo
de coisa (desapropriação)”.
Na opinião
do historiador Walter Assad, a questão da desapropriação é algo que se repete
constantemente. “Vimos isso com Passos, com Lacerda e agora não está sendo
diferente com o Paes. E em todas as ocasiões, a proximidade com o pobre gera
uma pressão da elite e isso alavanca a desapropriação por parte das
autoridades”.
As obras de demolição do Morro do Castelo
começaram em 1920, na gestão do prefeito Carlos Sampaio. As autoridades da
época, reforçadas por sanitaristas, diziam que o motivo da extinção do morro era
que ele impedia a circulação de ventos, o que contribuía para a propagação de
doenças e epidemias.
A demolição
do Morro do Castelo levanta outra questão importante, a não preservação dos
patrimônios da cidade. No caso do Morro, que foi o local onde o Rio foi
refundado, depois da expulsão dos franceses em 1567, importantes monumentos da
época como a Fortaleza e a Igreja de São Sebastião não foram poupados.
Para o
urbanista Ricardo Rinaldi, o Brasil não tem o costume de preservar sua história.
“Arquitetura também é arte e como arte deveria ser preservada. No entanto, o
que vemos é o capital falando mais forte. As construções e demolições de
prédios no Rio são completamente desordenadas. Você anda em ruas que só têm
prédios baixos e antigos, aí, de repente, surge um gigante de 20 andares
construído há menos de 10 anos.”
E
o legado?
Para Ricardo
Rinaldi esses eventos são importantes no sentido de acelerar o processo de
modernização de algumas carências da cidade. No entanto, a própria aceleração
acaba sendo um grande problema. “Falta planejamento e a falta de planejamento
gera atraso. O atraso traz consigo a pressa. E é nesse ponto que a população é
prejudicada. O legado que era para ser de 100% fica bem abaixo disso”. O
Pan-Americano é um exemplo que os cariocas costumam citar quando se fala em
legado. O que se vê é que realmente poucas obras continuam sendo utilizadas
Entre as
obras do Pan, algumas foram reaproveitadas e outras vão deixar de existir. São exemplos
de reaproveitamento, o Estádio de Remo da Lagoa que virou local de
entretenimento, com cinemas e restaurantes e a Arena Multiuso que hoje é uma
das principais casas de show do Rio.
Na opinião
de Walter Assad, o legado do Pan é um exemplo histórico do que não deve
acontecer nas Olimpíadas. “O que ficou do Pan? Quase nada. O Maria Lenk será
subaproveitado. Teremos que construir outro parque aquático. O Velódromo, vai
ser demolido. Ou seja, gastam-se milhões, mas, no final, tudo vira poeira de
novo.”
No Brasil,
menos de um ano após a Copa, alguns estádios estão com os dias contados. Em
estados que não possuem times capazes de atrair público, as arenas se tornaram
um problema. Para Ricardo, a antecedência é a chave de tudo. “O projeto todo
tem que ser muito bem pensado e com alguns anos de antecedência. O antes, o
durante e o depois tem que ter o mesmo peso de importância.”
Trânsito continua sendo um dos principais
transtornos do carioca
Os moradores do Rio de Janeiro sofrem com o
trânsito cada vez mais caótico. Em recente pesquisa realizada por uma empresa holandesa
de tecnologia de transportes, o Rio aparece em terceiro lugar entre as cidades
com mais trânsito no mundo. Na PUC-Rio, que
receberá uma estação de metrô, um levantamento apontou o trânsito como a
principal reclamação dos alunos. O aluno de engenharia Pedro Landim parou de ir
de carro para a universidade por causa do trânsito. “Pra mim, não vale mais a
pena, tenho que sair de casa cedo pra conseguir vaga no estacionamento. Fora
que me estresso muito com o engarrafamento”.
Ricardo Rinaldi aponta para o futuro do trânsito
carioca, com pouco otimismo. “O trânsito vai continuar existindo depois das
Olimpíadas, ainda estaremos muito defasados em termos de transporte público. Você
vai à Paris, Londres e Nova Iorque, por exemplo, e lá você vê mais de 10 linhas
de metrô. Nós teremos apenas quatro. Transporte de massa tem que ser metrô.”
Na opinião de Aparecida de Souza, nem tudo
é “para inglês ver”. Apesar dos problemas e da superlotação em alguns momentos,
a doméstica considera o BRT uma mudança importante em sua rotina. “Antes, eu
demorava muito mais para chegar ao trabalho. Tinha que acordar mais cedo, era
chato. O BRT me ajudou muito nisso.”
Para Ricardo, o BRT é realmente uma boa
saída para melhorar a situação do tráfego na cidade. “Várias metrópoles utilizam o BRT, no mundo. Tanto países do primeiro
quanto do terceiro mundo. No entanto, o BRT tem que funcionar como uma rede,
temos que integrá-lo à cidade.”

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