quinta-feira, 21 de maio de 2015

OBRAS PARA AS OLIMPÍADAS DE 2016 GERAM PREOCUPAÇÃO



Reformas que tomam a cidade são alvo de críticas e legado divide opiniões

por Juliana Medeiros

     Com falta de planejamento, prazos esgotados e remoções, as obras da prefeitura de Eduardo Paes para as Olimpíadas de 2016 preocupam cariocas e especialistas. A pouco mais de um ano do evento, a cidade tem que lidar com os impactos das obras, que vão desde a poluição sonora até o trânsito caótico e as elevações dos preços dos imóveis, além de ter pela frente algumas construções que ainda não saíram do papel. O destino dessas construções e o legado das reformas que tomam o espaço urbano levantam discussões sobre o futuro da cidade do Rio de Janeiro.

     No ano de comemoração dos 450 anos da Cidade Maravilhosa, a primeira cidade latino-americana a sediar uma Olimpíada, o debate sobre as obras e o seu legado retoma as memórias do projeto do prefeito Pereira Passos, que prometeu transformar o Rio do início do século XX. Conhecido como “Bota-Abaixo”, o plano de fazer da cidade a “Paris dos trópicos” contou com ações como o desmonte do Morro do Castelo e a construção da Avenida Central, a atual Rio Branco. Para a arquiteta Lívia Rodrigues, 32 anos, ainda é cedo para tirar conclusões, mas a semelhança dos projetos de Paes e Passos é mais um motivo de preocupação.


Eduardo Paes visita as obras do Museu do Amanhã
Foto: UOL Entretenimento

     Segundo a arquiteta, o esforço de modernizar a cidade seguindo padrões estrangeiros sem que haja um planejamento é uma característica comum aos dois prefeitos, responsáveis por remoções que são alvos de críticas pela população.  “Apesar de separados por um século, são projetos que parecem não ser feitos para o carioca, que de fato vivencia a cidade, mas para formar uma imagem do Rio para o exterior, deixando de lado uma série de problemas de infraestrutura que acometem a cidade desde sua formação”, afirmou Lívia.

     Com gastos que já chegam a R$36,7 bilhões, um orçamento 43% maior que o da Copa do Mundo de 2014, as Olimpíadas de 2016 trouxeram ao Rio projetos de instalações que tiveram sua utilidade questionada após o término dos jogos, como o Complexo Esportivo de Deodoro. Para Lívia Rodrigues, a preocupação com a preservação e utilização de arenas e parques olímpicos após os jogos é fundamental, mas há também reformas positivas na área do transporte público, meio ambiente e cultura. “Como bons brasileiros, tememos que tudo acabe em pizza, mas acho que o destaque dado a esses setores é uma novidade e, no caso do transporte público, é mais do que urgente” disse a arquiteta.

Complexo Olímpico de Deodoro: uma das obras mais polêmicas
     O bota-abaixo atual, além de levantar questões importantes sobre o futuro da cidade, tem provocado incômodo no dia-a-dia dos cariocas. Com a interdição de ruas, barulho e aumento do trânsito, a população tem sofrido com os inconvenientes da preparação para os Jogos Olímpicos. Moradora de Ipanema, a empresária Manoela Ferreira conta que há barulho das obras do metrô até durante a madrugada e reclama da falta de supervisão: “Meu irmão já teve que escalar as grades para entrar no prédio, pois havia uma máquina na entrada e os operários disseram que ninguém sabia tirá-la dali”.

     Em fase de transformação, o Rio de Janeiro parece comemorar seu aniversário à espera dos resultados das obras que prometem não só um evento esportivo, como também uma nova cidade. “Estamos tendo uma grande oportunidade e é preciso cuidado para não perdermos a chance de transformar o Rio na cidade que merece ser”, concluiu a arquiteta Lívia Rodrigues.

O BOTA-ABAIXO DE PEREIRA PASSOS

     Batizado de Bota-Abaixo pelo cronista João Paulo Coelho Barreto, o João do Rio, o processo de reformas no início do século XX se caracterizou pela derrubada de casarios do Centro e pelo desmonte do Morro do Castelo, sob o comando do então prefeito, Pereira Passos (1836-1913). As alterações culminaram na abertura de diversas avenidas, sendo a Avenida Central, atual Rio Branco, o grande destaque.

     A reforma de Pereira Passos foi inspirada nas intervenções do prefeito Haussmann, que tinha a intenção de transformar Paris em metrópole moderna, através da abertura de avenidas e bulevares. As obras no Cais do Porto abrangiam a drenagem e a construção da muralha do cais. Além disso, foram realizadas as obras do aterro de 175.000 metros quadrados de área conquistada ao mar, a colocação de trilhos da EFCB – Estrada de Ferro Central do Brasil e Leopoldina e das linhas do cais do Porto. 

A influência europeia na Avenida Central, autal Rio Branco
Foto: Augusto Malta, 1906
     Em 1904, uma série de insatisfações e inquéritos jurídicos, principalmente por comerciantes e moradores do Centro, se deu início em razão das ações da prefeitura. Pereira Passos recebia pesadas críticas da imprensa e, além disso, o Ministro Oswaldo Cruz pregava a vacinação obrigatória para dar fim à febre amarela e varíola. A situação acabou por provocar a chamada Revolta da Vacina, em 1910.

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