Reformas que tomam a cidade são alvo de
críticas e legado divide opiniões
por Juliana Medeiros
Com falta de planejamento,
prazos esgotados e remoções, as obras da prefeitura de Eduardo Paes para as Olimpíadas
de 2016 preocupam cariocas e especialistas. A pouco mais de um ano do evento, a
cidade tem que lidar com os impactos das obras, que vão desde a poluição sonora
até o trânsito caótico e as elevações dos preços dos imóveis, além de ter pela
frente algumas construções que ainda não saíram do papel. O destino dessas
construções e o legado das reformas que tomam o espaço urbano levantam
discussões sobre o futuro da cidade do Rio de Janeiro.
No ano de comemoração dos 450
anos da Cidade Maravilhosa, a primeira cidade latino-americana a sediar uma
Olimpíada, o debate sobre as obras e o seu legado retoma as memórias do projeto
do prefeito Pereira Passos, que prometeu transformar o Rio do início do século
XX. Conhecido como “Bota-Abaixo”, o plano de fazer da cidade a “Paris dos
trópicos” contou com ações como o desmonte do Morro do Castelo e a construção
da Avenida Central, a atual Rio Branco. Para a arquiteta Lívia Rodrigues, 32
anos, ainda é cedo para tirar conclusões, mas a semelhança dos projetos de Paes
e Passos é mais um motivo de preocupação.
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| Eduardo Paes visita as obras do Museu do Amanhã Foto: UOL Entretenimento |
Segundo a arquiteta, o
esforço de modernizar a cidade seguindo padrões estrangeiros sem que haja um
planejamento é uma característica comum aos dois prefeitos, responsáveis por
remoções que são alvos de críticas pela população. “Apesar de separados por um século, são
projetos que parecem não ser feitos para o carioca, que de fato vivencia a
cidade, mas para formar uma imagem do Rio para o exterior, deixando de lado uma
série de problemas de infraestrutura que acometem a cidade desde sua formação”,
afirmou Lívia.
Com gastos que já chegam a
R$36,7 bilhões, um orçamento 43% maior que o da Copa do Mundo de 2014, as
Olimpíadas de 2016 trouxeram ao Rio projetos de instalações que tiveram sua
utilidade questionada após o término dos jogos, como o Complexo Esportivo de
Deodoro. Para Lívia Rodrigues, a preocupação com a preservação e utilização de
arenas e parques olímpicos após os jogos é fundamental, mas há também reformas
positivas na área do transporte público, meio ambiente e cultura. “Como bons
brasileiros, tememos que tudo acabe em pizza, mas acho que o destaque dado a
esses setores é uma novidade e, no caso do transporte público, é mais do que
urgente” disse a arquiteta.
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| Complexo Olímpico de Deodoro: uma das obras mais polêmicas |
O bota-abaixo atual, além de
levantar questões importantes sobre o futuro da cidade, tem provocado incômodo
no dia-a-dia dos cariocas. Com a interdição de ruas, barulho e aumento do
trânsito, a população tem sofrido com os inconvenientes da preparação para os
Jogos Olímpicos. Moradora de Ipanema, a empresária Manoela Ferreira conta que
há barulho das obras do metrô até durante a madrugada e reclama da falta de
supervisão: “Meu irmão já teve que escalar as grades para entrar no prédio,
pois havia uma máquina na entrada e os operários disseram que ninguém sabia
tirá-la dali”.
Em fase de transformação, o Rio de Janeiro parece comemorar seu aniversário à espera dos resultados das obras que prometem não só um evento esportivo, como também uma nova cidade. “Estamos tendo uma grande oportunidade e é preciso cuidado para não perdermos a chance de transformar o Rio na cidade que merece ser”, concluiu a arquiteta Lívia Rodrigues.
O BOTA-ABAIXO DE
PEREIRA PASSOS
Batizado de Bota-Abaixo pelo
cronista João Paulo Coelho Barreto, o João do Rio, o processo de reformas no
início do século XX se caracterizou pela derrubada de casarios do Centro e pelo
desmonte do Morro do Castelo, sob o comando do então prefeito, Pereira Passos
(1836-1913). As alterações culminaram na abertura de diversas avenidas, sendo a
Avenida Central, atual Rio Branco, o grande destaque.
A reforma de Pereira Passos
foi inspirada nas intervenções do prefeito Haussmann, que tinha a intenção de
transformar Paris em metrópole moderna, através da abertura de avenidas e
bulevares. As obras no Cais do Porto abrangiam a drenagem e a construção da
muralha do cais. Além disso, foram realizadas as obras do aterro de 175.000
metros quadrados de área conquistada ao mar, a colocação de trilhos da EFCB –
Estrada de Ferro Central do Brasil e Leopoldina e das linhas do cais do Porto.
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| A influência europeia na Avenida Central, autal Rio Branco Foto: Augusto Malta, 1906 |
Em 1904, uma série de insatisfações e inquéritos
jurídicos, principalmente por comerciantes e moradores do Centro, se deu início
em razão das ações da prefeitura. Pereira Passos recebia pesadas críticas da
imprensa e, além disso, o Ministro Oswaldo Cruz pregava a vacinação obrigatória
para dar fim à febre amarela e varíola. A situação acabou por provocar a
chamada Revolta da Vacina, em 1910.



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