terça-feira, 26 de maio de 2015

Obras de Paes relembram período conturbado do Rio de Pereira Passos



              Comparações são inevitáveis para os cariocas que sofrem com as obras

Diego Mello 
            
Principal via do Centro, Av. Rio Branco, está em obra
 (Fernando Frazão/Agência Brasil)


            Restando menos de 500 dias para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, o Rio de Janeiro vive um momento de transformação. Obras são feitas em diversos pontos da cidade, modificando – para o bem e para o mal - o dia a dia dos cariocas. O período de mudanças, porém, não é novidade para a Cidade Maravilhosa. No início do século XX, o então prefeito Pereira Passos realizou uma reforma urbana no Centro, que ficou conhecida como “bota-abaixo”. Em 2015, as comparações entre o atual prefeito Eduardo Paes e Passos são inevitáveis.
            Até mesmo quem faz parte da equipe da Prefeitura do Rio de Janeiro reconhece isso. O urbanista Roberto Ainbinder, responsável pelo setor de Projetos Urbanos da Empresa Olímpica Municipal (EOM), órgão municipal responsável pela organização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, afirma que os dois prefeitos têm a “ambição de elevar a cidade a um status de cidade global”. Enquanto Passos criou um eixo comercial entre o Centro e o restante da cidade, Roberto vê a missão de Paes como mais “desafiadora”.
“Temos uma cidade mais espalhada, com uma população muito maior e maiores desigualdades sociais. Paes resgata para a cidade, através do Porto Maravilha, este mesmo centro esgotado, vítima de um crescimento ‘desplanejado’ da cidade, que provocou o abandono da região portuária”, disse.
            O período de “bota-abaixo” de Pereira Passos foi de bastante sofrimento para os moradores do Rio de Janeiro que moravam na região central da cidade. Em 2015, a situação não é diferente. Em meio às obras, os cariocas acabam sofrendo com diversos fatores, como o aumento do trânsito, os transportes públicos sobrecarregados e a insegurança. Um dos que sofrem é o jornalista Marcelo Rodrigues. A ida ao trabalho, na Barra da Tijuca, tem demorado o dobro de tempo do que o costume.
            “Saía de casa em Copacabana e levava 30 minutos para chegar ao trabalho. Agora, tem dias que levo mais de uma hora. E na volta é a mesma coisa”, reclamou.
            Roberto Ainbinder concorda que as obras na cidade têm alterado o modo de vida dos cariocas. Segundo ele, o momento de tantas transformações é inédito no Rio de Janeiro. O urbanista, porém, entende que o transtorno mostra que algo está sendo mudado na cidade.  
“Toda transformação exige sacrifício. Nunca a cidade viveu um momento como este, de transformações simultâneas em tão curto período de tempo. Não há como não incomodar. A boa notícia é que o incômodo tem data e hora para terminar”, afirmou.

Futuro de orgulho?

            Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016 estão batendo na porta do Rio de Janeiro e, assim como na Copa do Mundo, a organização é vista com descrédito. Muitas pessoas afirmam que a cidade não receberá um legado após os eventos esportivos.  É o que pensa o urbanista e arquiteto Ephim Shluger.
Em entrevista ao programa “Observatório da Imprensa”, ele se mostrou preocupado com o legado que será deixado para o Rio de Janeiro. “Os legados de Barcelona em 1992 foram urbanisticamente aprovados. Em Londres, o legado era sobre o critério da sustentabilidade. Preocupa-me muito nós não termos parâmetros claros sobre o legado desse investimento público que estamos fazendo”.
Roberto Ainbinder, por outro lado, entende que o Rio de Janeiro se servirá das Olimpíadas. Para ele, a própria candidatura da cidade para o evento mostra isso, com um DNA “da transformação e do legado”. “Porque ganhamos a candidatura dos Jogos de 2016 de cidades já preparadas e infraestruturadas? Exatamente pelos nossos problemas e pela oportunidade de transformação da cidade”.
Ainbinder acredita que a história da transformação do Rio acontece diante de nós. “Em minha opinião, já dá para começar a falar com orgulho das mudanças da cidade”, concluiu.

Rio 2016: os projetos do legado

Roberto Ainbinder é responsável pelo setor de Projetos Urbanos do Instituto Rio 2014-2016, órgão municipal responsável pela organização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016. Em entrevista, ele falou sobre as obras para o grande evento esportivo do ano. Para Ainbinder, “a cidade deve se servir dos Jogos e não os Jogos da cidade”.
O urbanista usou como exemplo de grande transformação no Rio de Janeiro a Praça Mauá. A região ainda está em obra, mas quem passa por lá, já vê algumas mudanças com o fim do Elevado da Perimetral. O local ainda terá dois museus importantes para a cidade. O Museu de Arte do Rio (MAR) já está em funcionamento, e, em breve, será inaugurado o Museu do Amanhã.
 “A Praça Mauá é um pequeno e emblemático exemplo sensorial de tudo isso que estamos falando. É outra paisagem sem a Perimetral e a balbúrdia de carros e pistas a sua volta”, disse. “A derrubada da Perimetral marca uma mudança importante de paradigma, privilegiando as pessoas em detrimento do automóvel”, completou.
De acordo com Ainbinder, o Rio de Janeiro tem “inúmeros projetos de legado”. Com a chegada de novas linhas BRTs e VLTs, o urbanista estima que, após 2016, 60% da população se desloque em transporte de alta capacidade. Em 2010, eram 17%. 

Jogos Olímpicos, claro, não são feitos sem instalações esportivas. Segundo Ainbinder, os locais que estão sendo construídos são apenas os “indispensáveis” para o evento. Algumas instalações, porém, serão reutilizadas, como a Arena de Handebol. Totalmente desmontável, ela se transformará em quatro escolas públicas ao fim da competição. 

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