Comparações são
inevitáveis para os cariocas que sofrem com as obras
Diego Mello
Principal via do Centro, Av. Rio Branco, está em obra
(Fernando Frazão/Agência Brasil)
Restando menos de 500 dias para os Jogos Olímpicos e
Paralímpicos de 2016, o Rio de Janeiro vive um momento de transformação. Obras
são feitas em diversos pontos da cidade, modificando – para o bem e para o mal
- o dia a dia dos cariocas. O período de mudanças, porém, não é novidade para a
Cidade Maravilhosa. No início do século XX, o então prefeito Pereira Passos
realizou uma reforma urbana no Centro, que ficou conhecida como “bota-abaixo”. Em
2015, as comparações entre o atual prefeito Eduardo Paes e Passos são
inevitáveis.
Até mesmo quem faz parte da equipe da Prefeitura do Rio
de Janeiro reconhece isso. O urbanista Roberto Ainbinder, responsável pelo
setor de Projetos Urbanos da Empresa Olímpica Municipal (EOM), órgão municipal
responsável pela organização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, afirma
que os dois prefeitos têm a “ambição de elevar a cidade a um status de cidade
global”. Enquanto Passos criou um eixo comercial entre o Centro e o restante da
cidade, Roberto vê a missão de Paes como mais “desafiadora”.
“Temos
uma cidade mais espalhada, com uma população muito maior e maiores
desigualdades sociais. Paes resgata para a cidade, através do Porto Maravilha,
este mesmo centro esgotado, vítima de um crescimento ‘desplanejado’ da cidade,
que provocou o abandono da região portuária”, disse.
O período de “bota-abaixo” de Pereira Passos foi de
bastante sofrimento para os moradores do Rio de Janeiro que moravam na região
central da cidade. Em 2015, a situação não é diferente. Em meio às obras, os
cariocas acabam sofrendo com diversos fatores, como o aumento do trânsito, os
transportes públicos sobrecarregados e a insegurança. Um dos que sofrem é o
jornalista Marcelo Rodrigues. A ida ao trabalho, na Barra da Tijuca, tem
demorado o dobro de tempo do que o costume.
“Saía de casa em Copacabana e levava 30 minutos para
chegar ao trabalho. Agora, tem dias que levo mais de uma hora. E na volta é a
mesma coisa”, reclamou.
Roberto Ainbinder concorda que as obras na cidade têm
alterado o modo de vida dos cariocas. Segundo ele, o momento de tantas
transformações é inédito no Rio de Janeiro. O urbanista, porém, entende que o
transtorno mostra que algo está sendo mudado na cidade.
“Toda
transformação exige sacrifício. Nunca a cidade viveu um momento como este, de
transformações simultâneas em tão curto período de tempo. Não há como não
incomodar. A boa notícia é que o incômodo tem data e hora para terminar”,
afirmou.
Futuro
de orgulho?
Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016 estão batendo
na porta do Rio de Janeiro e, assim como na Copa do Mundo, a organização é
vista com descrédito. Muitas pessoas afirmam que a cidade não receberá um
legado após os eventos esportivos. É o
que pensa o urbanista e arquiteto Ephim Shluger.
Em
entrevista ao programa “Observatório da Imprensa”, ele se mostrou preocupado
com o legado que será deixado para o Rio de Janeiro. “Os legados de Barcelona
em 1992 foram urbanisticamente aprovados. Em Londres, o legado era sobre o
critério da sustentabilidade. Preocupa-me muito nós não termos parâmetros
claros sobre o legado desse investimento público que estamos fazendo”.
Roberto
Ainbinder, por outro lado, entende que o Rio de Janeiro se servirá das
Olimpíadas. Para ele, a própria candidatura da cidade para o evento mostra
isso, com um DNA “da transformação e do legado”. “Porque ganhamos a candidatura dos Jogos de 2016 de cidades já
preparadas e infraestruturadas? Exatamente pelos nossos problemas e pela
oportunidade de transformação da cidade”.
Ainbinder
acredita que a história da
transformação do Rio acontece diante de nós. “Em minha opinião, já dá para
começar a falar com orgulho das mudanças da cidade”, concluiu.
Rio
2016: os projetos do legado
Roberto Ainbinder é responsável pelo setor de Projetos Urbanos do Instituto Rio 2014-2016,
órgão municipal responsável pela organização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos
de 2016. Em entrevista, ele falou sobre as obras para o grande evento esportivo
do ano. Para Ainbinder, “a cidade deve se servir dos Jogos e não os Jogos da
cidade”.
O
urbanista usou como exemplo de grande transformação no Rio de Janeiro a Praça
Mauá. A região ainda está em obra, mas quem passa por lá, já vê algumas
mudanças com o fim do Elevado da Perimetral. O local ainda terá dois museus
importantes para a cidade. O Museu de Arte do Rio (MAR) já está em
funcionamento, e, em breve, será inaugurado o Museu do Amanhã.
“A Praça Mauá é um pequeno e emblemático
exemplo sensorial de tudo isso que estamos falando. É outra paisagem sem a
Perimetral e a balbúrdia de carros e pistas a sua volta”, disse. “A derrubada
da Perimetral marca uma mudança importante de paradigma, privilegiando as
pessoas em detrimento do automóvel”, completou.
De
acordo com Ainbinder, o Rio de Janeiro tem “inúmeros projetos de legado”. Com a
chegada de novas linhas BRTs e VLTs, o urbanista estima que, após 2016, 60% da
população se desloque em transporte de alta capacidade. Em 2010, eram 17%.
Jogos
Olímpicos, claro, não são feitos sem instalações esportivas. Segundo Ainbinder,
os locais que estão sendo construídos são apenas os “indispensáveis” para o
evento. Algumas instalações, porém, serão reutilizadas, como a Arena de
Handebol. Totalmente desmontável, ela se transformará em quatro escolas
públicas ao fim da competição.

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